Esclarecimento ou O Cavaleiro e Os Moinhos

Em respeito aos leitores do nosso blog (sim, eles existem!), creio sejam necessários alguns esclarecimentos.

Já faz mais de um ano que não coloco algo sério por aqui. Melhor: algo “profundo”, ou que eu, com uma pequena parcela de presunção, considere dessa maneira.

Prometi a Gabriel, ao mesmo tempo que prometi a mim mesmo, que iria desenvolver uma resposta ao texto dele E também ao despropósito das eleições presidenciais assim que encerrasse o período na faculdade. A promessa, contudo, não será cumprida.

Há muito tempo atrás, pouco mais de um ano e meio[1], cimentei o compromisso pessoal de elaborar artigos, estudar bastante, enfim, organizar melhor as ideias. Mas a verdade é que nada disso aconteceu.

Em junho ou julho de 2009, inscrevi-me num concurso de monografia da universidade particular em que vinha estudando Letras – a Universidade Tiradentes (UNIT). Em seguida teve início o período curricular, tentei uma primeira vez voltar ao curso de Direito na Universidade Federal de Sergipe (UFS), matriculando-me em três matérias, mas não deu certo. Somando-se com o curso de Letras, tinha ficado com o total de nove matérias. Fiquei confuso por mais ou menos três meses, nunca gostei de fazer as coisas de qualquer jeito, na base do tanto-faz, empurrando os compromissos com a barriga – o que, aliás, acaba por descomprometer o compromisso, isto é, o sentido dele. Até que resolvi trancar as disciplinas na federal, ocupando-me somente com o curso de Letras.

Alguma coisa parecia estar errada. Se tinha certeza de minha decisão de deixar o curso de Direito, por que raios insistia em arranjar alguma maneira de voltar? Era dessas perguntas básicas, elementares, introdutórias, que temos tanta dificuldade de lembrar quando nos encontramos prostrado entre dúvidas…o intelecto vegetando num quarto apertado de angústias.

Em meados de março de 2010, começou o período na UFS. Antes disso já havia resolvido tentar novamente conciliar os cursos, tinha me matriculado dessa vez em duas disciplinas. Com as seis disciplinas do curso de Letras, somavam-se oito. É, dá pra segurar, eu pensei. Novamente estava errado. Isso foi o que constatei, não o que concluí. E no entanto mais importante mesmo era a conclusão: o erro maior não residia no cálculo, mas na equação aplicada. Poderiam ser seis disciplinas no total, ou cinco, ou ainda um número menor, mas o erro permaneceria, pois a equação não continuaria a resolver o problema – ou, dito de outra forma, a equação não serviria para encontrar o “x”.

Qual era então o erro essencial? A enorme dificuldade em conciliar dois cursos de diferentes orientações profissionais. Não, não. Eu tinha dois propósitos diferentes com os cursos de Letras e de Direito. Com o curso de Letras eu tinha o propósito de me dedicar à minha formação filosófica, com o curso de Direito eu queria apenas aproveitar seu caráter mais técnico e prático para garantir minha profissão. Aí está o busílis, o tal “x”.

No momento, eu não estou interessado em desenvolver qualquer elaboração teórico-crítica. Mas é do meu mais íntimo interesse me voltar à formação filosófico-científica geral, sem necessariamente, para isso, ligar-me/filiar-me a uma determinada orientação e corrente de pensamento que tenha contribuído à interpretação sobre a formação histórico-econômica dos povos, bem como ao domínio dos estudos epistemológicos – isto é, o marxismo.

Com tudo isso, parecerá contraditório que eu queira, mesmo assim, reafirmar meu compromisso com a tradição marxista. Não considero que haja aí um conflito; pode-se buscar a reafirmação de um elemento submetendo os demais à prova da razão. Apenas tal processo exige do intérprete um grau mínimo (o único possível) de afastamento, de isenção.

De todo modo, para que a discussão não gire em torno dessa que, para mim, é uma contradição razoável e compreensível, reafirmarei meu compromisso com a luta dos trabalhadores em direção a um projeto societário alternativo e logicamente antagônico ao modelo de produção vigente – o comunismo.

Aliás, só assim, com esse período de reflexão, me sentirei apto aos desafios apresentados por nós em Nossa proposta:

“Grosso modo, através de simples operação matemática – uma realidade que não mudou + pessoas que fingem tentar mudar a realidade – é que se decidiu pela criação de Panscopia, instrumento para instrumentalizar. Não é uma tautologia para velar uma forma oca: criticamos a atuação acadêmica/intelectual não-militante. Propõe-se, então, construir um veículo que possibilite uma rearticulação dos interesses históricos da classe trabalhadora e das ferramentas necessárias para a realização deles. Contudo, sem tropeçar em imediatismos, ou em desesperos embutidos na espera de que as transformações sociais e a superação do capital ocorrerão de um dia para o outro, trata-se de voltar à tarefa de compreender a sociedade,muito determinada, com o rigor teóricocientífico que ela exige:“Ciência e paciência, certa é a tortura” (Rimbaud, em Uma estadia no inferno)”.

Tem mais.

Muito aconteceu do ano de 2009 para cá. Digo, muito aconteceu na minha vida. Mas, com sinceridade, não creio que tenham alguma relevância para compreender o porquê de eu ter alimentado tantas dúvidas quanto aos nossos ousados projetos, e ao mesmo tempo quanto às minhas presunçosas ambições de “garoto que ia mudar o mundo”. Apaixonei-me duas vezes, idealizei mulheres ao longo de muitos anos, isso só me trouxe tristeza e frustrações. Vá por mim, não é uma boa ideia ser romântico.

Se você se apaixona, só pode ser sinal de que você não se sente muito bem consigo mesmo. Afinal, paixão, no grego entendida como eros, é falta, é necessidade de completar-se com aquilo que você julga carecer. Então você deposita tudo aquilo que lhe falta na pessoa por quem você se apaixona e tenta envolvê-la no seu turbilhão imaginário de sentimentos – a experiência acaba por ser intensa, uma enchente implacável, ou, talvez menos, um rio caudaloso, mas de toda forma traumática, para você e para a pessoa. E sabe o que acontece? No final, a pessoa é tão carente quanto você. Ela sente as mesmas faltas, pois ninguém pode ser tão completamente completo – na verdade, somos apenas completos naquilo que essencialmente somos…incompletos. E assim nos completamos numa incompletude universal.

(– aliás, quem não já ouviu que o universo se expande a cada dia? Nós nos expandimos como o sol também a cada dia se expande, como bólides passam, como vagalumes piscam dançando bruxuleantes numa madrugada azul de tensão esperançosa. As orações estendem-se, a linguagem então se expande no pensamento que relampagueia. Sou uma estrela que fala trêmula seu brilho de desespero à Terra.)

!

Porra nenhuma, sou humano, só.

(Tyler Durden says listen up, maggots. You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You’re the same decaying organic matter as everything else.)

 

 

Tá, alguém já disse que sou verborrágico. Mas no sentido poético, esse alguém me disse logo depois, de um jeito simpático. Mesmo assim, penso que a breve reflexão tenha lá alguma lógica. E, vejam, eu disse que não creio que tenham alguma relevância para compreender o porquê de eu ter alimentado tantas dúvidas. Contudo, acabei dedicando um grau de importância que inicialmente não esperava. Fazer o quê…

E como se não fosse o bastante, preciso afastar-me para cuidar de atividades de formação profissional. Quero dedicar-me à jurisprudência, e para isso é necessário obcecar-me pelo aprimoramento teórico-prático no Direito. Matriculei-me em dois cursinhos no início deste ano, um destinado à preparação para o concurso do TRT, outro de atualização jurídica. Preciso urgentemente de um emprego, ganhar meu salário, para que assim possa custear meus estudos e ser dono pleno de minha vida e minhas decisões.

Fica, para concluir, meu abraço e um obrigado a todos/as que nos visitam.

Até breve, assim espero.

E procuraria se libertar do seu círculo fechado e asfixiante, incorporando o seu saber técnico e as suas conquistas à obra madura que sonhava realizar, conscientemente procurando esquecer o que sabia, para alcançar, através do trabalho e de outra disciplina, a sua técnica e expressão próprias, verdadeiramente livres, pouco importando o preço que tivesse de pagar” (Autran Dourado, “Um artista aprendiz”, p. 271)

Danilo Vilela


[1] Na verdade, creio ter sido algumas semanas depois da publicação daquele que se tornou o nosso texto mais conhecido, Esquerda Reafirmada.


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4 Comentários

Arquivado em Dialogarte

4 Respostas para “Esclarecimento ou O Cavaleiro e Os Moinhos

  1. Iara

    Espero que consiga conciliar todos esses projetos para que continue postando, seus textos são uma delícia divertida e complexa!
    Ah, e afinal, que fim levou o curso de letras??

  2. Espero que consiga conciliar todos esses projetos para que continue postando, seus textos são uma delícia divertida e complexa!
    Ah, e afinal, que fim levou o curso de letras??

    • Danilo

      Oi, Iara!!!

      Obrigado pelo comentário.
      Pois é, a questão do curso de Letras ficou em aberto mesmo. Vacilei. E eu que revisei duas, três vezes esse texto, nem percebi. Bem, ao fim e ao cabo, acabei saindo do curso de Letras; não era possível conciliar com o Direito, tinha que fazer uma escolha. Resumidamente, é como diz o ditado – “gato com dois sentidos não pega rato”, rs.

      Espero que continue acompanhando o blog! – que, por enquanto, só contará com a contribuição de Gabriel.

      Até, beijos! =)

  3. Ramon

    “Preciso urgentemente de um emprego, ganhar meu salário, para que assim possa custear meus estudos e ser dono pleno de minha vida e minhas decisões.”

    Afinal, a solução honesta para vida é sempre uma solução “capitalista”. E sem +.

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