A Romênia é aqui: a política da câmera e a imagem da política

Penso que o cinema é sempre, ou quase sempre, uma caixa de possibilidades. Mesmo que determinada peça cinematográfica esteja nos extremos de um “documentário realista” ou de uma “fiçcão totalmente imaginada”, os desdobramentos possíveis de serem feitos pelos espectadores podem ir ao pólo oposto – sem falar, é claro, nas infinitas possibilidades intermediárias. Ou seja, além de coisas diretamente apreensíveis como objetivo(s) do diretor e roteirista, há sempre outras coisas que dão novas possibilidades de interpretação e conhecimento do mundo. Afinal, arte também é uma forma de conhecer.

Assisti ontem ao filme de estreia do diretor romeno Corneliu Porumboiu, A leste de Bucareste (A fost sau n-a fost?, 2006), que coloca-nos  perante embates Históricos (afinal, história existe objetivamente ou é sempre a hegemonia de certa construção discursiva?), urgências políticas sobre nosso próprio espaço, e – principalmente – os potenciais e perigos de uma câmera. Em primeiro lugar, é um filme ao mesmo tempo apaixonado e em crise com o cinema.

Não vou fazer uma descrição do filme, isto não é uma sinopse ampliada. Atenho-me a alguns detalhes (quem não assistiu e não gosta de saber coisas de um filme antes de vê-lo, pare agora e volte para terminar depois de assistir).

Numa dimensão mais específica, em paralelo com críticas políticas, há a possibilidade de uma crítica ao próprio jornalismo. Oras, mas não é exatamente daquele jeito? Perguntas irrelevantes com entrevistados querendo falar de coisas além da mediocridade televisiva pasteurizada – mesmo que seja invenção apenas para construção de uma imagem -, e os âncoras achando que estão ” abafando”? Com exceções tanto para bons jornalistas quanto para entrevistados medíocres, talvez seja o que mais acontece.

Mas creio que o central encontra-se naquelas frases finais do narrador; são fantásticas. De início, parece que é o camera man do programa televisivo quem está pensando, e cujos pensamentos escutamos; porém, a voz continua depois que ele sai de cena e depois que a cena muda. Imagino ser o próprio diretor, dizendo algo como “Por isso eu decidi ficar atrás da câmera, e deixar aqueles idiotas se acotovelarem para se enquadrarem”. Nada menos que um incisivo testemunho pessoal, agressivo e apaixonado, sobre o cinema, mas também sobre a televisão e a câmera em geral. Os potenciais e limites/perigos do uso – e propagação ampliada – da imagem. A mesma voz no final comenta das lâmpadas se acendendo juntas, provocando um brilho “bonito e tranquilo”, como são as lembranças dele [do dono da voz] sobre a ‘revolução’. Por fim, o fato de ser filme de estreia do diretor é algo que reforçou essa minha hipótese.

Há outros pequenos detalhes cheios de possibilidades. Por que afinal a única diversão infantil mostrada é as bombinhas? Das duas, uma: ou foi uma escolha por algum motivo, ou é um espelhamento da realidade. Talvez seja o que tenha sobrado de um regime opressor (e nada comunista) para as crianças, assim como na maior parte das cidades brasileiras o que o capitalismo lega como entretenimento são shoppings – e apenas shoppings. A exclusividade de um elemento que remete à própria degradação espiritual (sem qualquer sentido místico aqui) que leva às pessoas a tal “lazer”.

E é curioso: por que um chinês vendendo bombinhas na Romênia? Numa pesquisa rápida, descobri que depois da intervenção da URSS, a Romênia – até 1989 – passou a maior parte do tempo como parceira da China e em tensão com a URSS. Nessa “brincadeira infantil” do filme pode estar contida uma outra ácida crítica política. Inclusive, quando perguntado no programa por que vendia as bombinhas, o chinês responde simplesmente: “Oferta e demanda”.

Por fim, a questão-motora do enredo não é casual. Pelo que descobri por agora, a questão de se aconteceu ou não uma revolução em 89, como foi, qual o papel dos principais personagens, é um debate em aberto para os romenos. Faz parte da história deles até hoje, e que foi transposta para um humor negro, mas por um diretor preocupado com a realidade de seu povo. Sabem toda aquela lentidão inicial que nos incomodou, que foi superada quando o programa de  TV começa? Bem, além da apresentação dos personagens, é muito mais um pretexto para colocar ao espectador o seguinte: “Está vendo o carro nesta cena? Agora preste atenção por onde ele passa. Preste atenção nas preocupações das pessoas, neste bêbado, neste jornalista medíocre, naquele professor que estimula o companheiro de profissão a inventar notas, na pobreza das ruas, nas crianças que se divertem miniaturizando a sonoridade de uma guerra, etc. Faz diferença mesmo continuarmos discutindo o que aconteceu? Afinal, o que vale a pena não é discutirmos nosso país hoje?”.

Longe de qualquer esterilidade pós-moderna; não nego a importância crucial da história. Existe história objetiva, e é nela que encontravam-se os elementos hoje altamente desenvolvidos. Mas… Quando vamos deixar de achar que a disputa retórica pelo passado muda os rumos futuros? Não é a Razão hegeliana o motor e fim da história, mas sim a ação humana coletiva.

Gabriel G. Lourenço é estudante de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo.

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