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A morte do libanês

A morte do libanês

Pluma nunca soube se sua opinião era um preconceito, mas sentia que era fora de lugar um descendente de libaneses ser tão escandaloso. Incomodava-se porque o escândalo assemelha-se a bebedeiras. Não àquelas dos finais de semana, já agendadas nos celulares, divulgadas em redes sociais eletrônicas, como se fosse o pagamento periódico de contas, o almoço de família com aquela lasanha que sua avó faz para estas ocasiões, ou até o sexo anônimo como ato de liberdade, porque um relacionamento monogâmico estável é mera opressão; sim, o sexo agendado para reagir contra a rotinização da vida.

Não. A aproximação é com a bebedeira em uma quarta-feira, quando se quer, de tempos em tempos, dar algum sentido à expressão “dia útil”. O escândalo é o indivíduo dizendo que existe, sentindo-se caluniado por chamarem a existência diária em grupos tão iguaizinhos de liberdade de expressão individual.

Para ela, aquele libanês com seu escândalo diário, publicizando o privado do apartamento (ela até mencionou certa vez uma briga até por causa de uma privada), era fora de lugar. Enxertada há poucos meses no Paraíso, ainda não havia enraizado o suficiente para conhecer tudo que existia abaixo da superfície, e o julgamento que fazia da vida local era restrito na mente por ser restrito o desenho geográfico e a vida comportamental no qual era baseado. Aquela situação despertava-lhe a atenção por sua ocorrência em bairro originalmente marcado por famílias libanesas e sírias, tumultuado nas imediações da estação do metrô e da Rua Vergueiro, provincianamente silencioso nas direções do Cambuci e Aclimação. Aquilo era fora de lugar por ele ser libanês, por não respeitar o que significa habitar um apartamento em São Paulo e por abalar a analogia entre escândalo e bebedeira de quarta-feira.

Não se trata apenas do significado, mas do sentimento, tão mais profundo quanto mais silencioso, de dissolver-se nos finos tapumes de um apartamento. Pluma tentava amenizar seu incômodo justificando que o prédio, com seus dois lances de escada, sem elevador, sem porteiro, praticamente sem síndico, com uma garagem cujo portão passava mais tempo manual do que automático, transmitia aos seus moradores uma sensação de transição entre a casa e o apartamento moderníssimo (estes de 24m², localizados em edifícios de pelo menos 15 andares, construídos em 6 meses); e a transição coloca para as pessoas a bifurcação entre resistir ou consentir. O libanês devia ser um bravo defensor da tradição.

Os escândalos, surpreendentes enquanto forma, nada tinham de curioso em seu conteúdo. Brigas e discussões com a esposa, igualmente incontida. Mas esta era brasileira, raça dos que berram quando ganham mil reais na loteria, gritam quando são fechados no trânsito. Só se controlam mesmo quando patrão diz que o corte de salário é por causa do aumento dos custos operacionais e dos redirecionamentos estratégicos e de gestão.

Um dos escândalos do qual Pluma melhor se recordava era por causa do gato. Ela não precisava esforçar-se para manter na memória a situação; não só pela recorrência do motivo, mas também pela inaudita conclusão de que há no empreendimento divino um grau hierárquico intermediário entre Deus e eclesiástico, ocupado pelo gato: se o reverendo instaura o amor e o respeito por toda a vida no interior do casal, o felino frequentemente desautorizava a ordem, acreditando          que a jornada conjugal deveria seguir por outras vias. Infelizmente, como em todas as outra brigas, ela nunca soube os detalhes, cada estopim particular, cada partitura orquestrada pelo animal que desembocava naqueles dramas italianos.

Nos escândalos característicos nunca é possível distinguir frases completas; raramente toma-se conhecimento do início e do fim. Eles eram apreendidos por Pluma (voyeur por nomeação e não por mérito próprio) somente em seus contornos; acordava sempre numa galeria de intervenções impressionistas.

Foi num sábado acalorado, fins de verão, que Pluma presenciou, sem poder olhar, o encontro entre a vida e o substancioso noticiário nacional: “Você acha o que, que vou pegar a faca e te matar?”. Era a única frase da qual se recordava ao relatar outro episódio da falência daquele casamento. Imediatamente debruçou-se sobre a janela, mas encontrou apenas a mesma vista cega de todas as vezes que ansiava por ver os personagens e dava somente com o cenário secundário. As janelas internas dos apartamentos fitavam umas às outras perpendicularmente, conformando três cruzes imaginárias, uma por andar. O térreo, espaço libanês, era ladrilhado, mas isso não bastava para amenizar o clima sertanejo e espinhoso que pairava sobre aquele casal como densa nuvem. Comprovava-o o muro que constituía a lateral do prédio. Contíguo a outro imóvel, agarrava-se a este em angústia desesperada, desejando apenas correr para não mais assistir quieto ao domínio de um grilhão civil e religioso sobre seres que se tornaram escravos mútuos. O outro muro nada podia fazer, e talvez por isso mesmo desfazia-se em pranto tão convulsivo, encharcando seu companheiro ao ponto de criar grandes infiltrações no apartamento de Pluma. A tristeza que naquele cubo se instalara era de tal monta que também o apartamento de Pluma não conseguia fazer-se indiferente: quanto mais os gritos apunhalavam as palavras, tanto mais as infiltrações chorosas soltavam a camada homogênea de tinta que cobria parte da sala de Pluma, exibindo uma estrutura composta de blocos já fracionados, ainda que com fronteiras bem definidas entre si.

Dizia Pluma que nas últimas semanas escasseavam as manifestações da saúde matrimonial. Isso passou a perturbá-la gradativamente. Um pequeno e frequente sentimento de ansiedade aguardava-lhe sorrindo retornar das aulas, assim como levantava-se antes dela para já deixar pronta meia garrafa de café quente. Estranhamente, a mudança foi acompanhada de algumas aparições da esposa do libanês na área externa. Não que antes não houvesse plantas e flores a serem regadas, ladrilhos a serem lavados, roupas para serem penduradas no varal a fim de que secassem para o marido e o filho (de trinta e nove anos, cento e quatorze quilos) usarem; mas agora, por algum motivo, aquela mulher coincidia de quando em quando com os olhos de Pluma esparramados pela janela. Todavia, não houve qualquer momento no qual pudesse divisar aquela pessoa em sua integridade, em sua completude. Tinha vaga ideia numérica de sua altura e seu peso, notou mais ou menos o comprimento e a cor do cabelo tingido, percebeu o andar manco e vagaroso, avistou pés esbranquiçados e enrugados – pouco sol, muita água. Mas nada de formato do rosto, tonalidade dos olhos, curvatura do nariz, contorno da boca. Nada do ângulo que a mandíbula fizesse na articulação com o queixo. Nenhum anel, mas será que algum brinco? Colar? Por vezes a visão erguida, por cima, afastada do objeto, apenas oculta aquilo que tencionava revelar em sua totalidade. Supostamente Pluma poderia ter feito uma descrição mais rica caso a mulher, em apresentação única, houvesse desenrolado a coluna cansada da posição de parábola mantida por tantos anos para sustentar uma dona de casa (não identificar com “dona da casa”; o libanês não perdoaria tamanho equívoco), e com isso exibido o rosto. Mas trata-se não mais do que suposição estéril, pois Pluma ocultar-se-ia em seu apartamento tão rápido quanto aquela mulher tentasse surpreendê-la.

Silêncio. Si-lên-cio. Se havia algum indício, algum sintoma de resistência naquele prédio à vida paulistana, então seu coração deixou de bombear aquelas refregas escancaradas. Por dias seguidos, Pluma posicionava-se perante a janela aguardando novas cenas. Tentava, como público bem educado, atrair a atenção dos atores, que pareciam pouco estimulados a seguir com o espetáculo: segunda-feira joga cinzas de cigarro naqueles ladrilhos, terça-feira pó de café, quarta-feira deixa cair uma tampa de panela. O cheiro de ureia tornava-se insuportável; o gato, em solidariedade, também não calculava esforços.

Silêncio. Já não tolerando mais aquele interlúdio, Pluma caminha até à porta, retorna, busca uma xícara na cozinha (naquele momento qualquer desculpa era um motivo, mesmo que démodé), alcança novamente a porta de seu apartamento. Solta a longa trava, desce o primeiro lance de escadas, depara-se com um pequeno grupo de vizinhos, estes palestrando entre si algo sobre “o casal que grita”. Um pouco embaraçada, Pluma diminui a velocidade dos passos, faz a súbita curva do andar, e acelera na descida do segundo lance. Defronta-se mais uma vez com alguns vizinhos, que se entreolham, trocam pequenos sorrisos nervosos:

– É… Eles se mataram.

Seguiram-se a esse veredicto pés descalços, pés calçados, pés enmeiados, pés que assomavam à escada do jeito que estavam. Seus proprietários (“encorajados por mim?”, pensou Pluma) percorreram num átimo os degraus que conectavam o primeiro andar ao térreo. O mero encontro daquelas pessoas foi suficiente para catalisar a ação: notando que a porta do apartamento do casal não estava trancada, um sentimento de dever fê-los adentrar o primeiro cômodo. Espremiam-se sob o batente, pois ninguém desejava a responsabilidade da invasão, como também ansiavam pela primeira visão; neste momento, um cheiro podre, infecto, de carne cujos poucos sinais de vida que restam são dos vermes que tornaram-se a própria carne, dominava qualquer espaço que ali houvesse. Porém, aquele odor reinava tão plenamente que, não sendo possível mais compará-lo a outros aromas, em pouco tempo já era indistinguível de outras possibilidades. O putrefato torna-se regular. O grupo, após atravessar poucos metros, atinge a soleira do quarto principal; a porta estava entreaberta, sendo possível enxergar apenas o recorte de uma cama com lençóis desarrumados.

Com uma leve pressão sobre a porta, retorna pouco a pouco a continuação, findo o interlúdio. Os olhos, mantendo-se firmes em sua busca, fixam-se na cama, com seu colchão, seus lençóis, travesseiros. Inquietos pela ausência de qualquer pessoa no interior do apartamento, voltam a movimentar-se. Enquanto o grupo de olhos sobem da cabeceira pela parede, o cheiro deteriorado lembra àquelas pessoas que ainda se faz presente. Elas enxergam, ocupando toda a área da parede oposta à porta, um grande espelho plano.

 

16-08-2012 (conclusão)

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A passagem: vinte centavos ou efeito dominó? (II)

A primeira parte deste texto foi escrita e publicada no dia 16 de junho (https://panscopia.wordpress.com/2013/06/16/a-passagem-sp/), véspera do 5º Ato Contra o Aumento da Passagem em São Paulo, convocado pelo Movimento Passe Livre. Dadas algumas mudanças substantivas desde o 6º Ato (17 de junho), concomitante a outros atos pelo país, o debate político e as ações de rua ainda estão em aberto e quero, mais uma vez, tentar contribuir para essas discussões.

No primeiro texto, foquei a oposição criada por governos entre diálogo e protesto, algumas contradições presentes em algumas declarações do governo municipal (até porque o governo estadual foi muito mais duro e direto em defender a permanência do preço da passagem e a repressão aos atos), a violência da Polícia Militar e sua ostensividade no 4º Ato (13 de junho) e, também, o fundo político (e não meramente “inflacionário”) do aumento da tarifa dos transportes. Neste segundo texto, o foco gira para o próprio movimento e suas diversas manifestações.

Um dos fatos que mais está chamando a atenção dos militantes neste momento, e não apenas na cidade de São Paulo, é o enorme número de pessoas que foram às ruas em vários municípios brasileiros desde segunda-feira. Passou-se de atos com, mais ou menos, 7 mil pessoas a atos com 100 mil (ou mais) manifestantes, em um intervalo de 4 dias. Se por um lado isso coloca a pergunta do “Como?”, por outro não deve apagar o passado: pessoas organizadas em movimentos sociais diversos e partidos políticos realizam protestos há muito tempo, sofrem repressão política e policial também há muito tempo. Quer dizer, nossa primeira tarefa analítica (que, provavelmente, não será feita repentinamente) é encontrar a conexão: não assistimos algo que é resultado de espontaneísmos; mas, bem sabemos, não estávamos cumprindo os passos necessários para organizar manifestações dessa magnitude.

Entender o que provocou, e está provocando, essa conexão entre o movimento social brasileiro até o dia 13 e o que se dá a partir do dia 17, não é secundário, e por vários motivos. O principal é que, se até o dia 13 os diversos movimentos sociais brasileiros tinham uma ação mais restrita em termos de pessoas mobilizadas, de visibilidade e de resultados efetivos, a partir do dia 17 esses três termos são invertidos, mas agora com expressões politica e ideologicamente muito contraditórias e conflituosas.

Resumidamente, são três as principais “novas” expressões: uma ampliação enorme de pautas e palavras de ordem (das mais específicas às mais genéricas); o uso, verbal e imagético, de símbolos nacionalistas; o repúdio à presença explícita de partidos políticos (bandeiras, camisetas, faixas). As críticas a esses elementos têm sido em diversos graus: no mínimo, são vistos como vazios e ineficazes; no máximo, como pertencentes ao universo autoritário e ditatorial.

Penso ser necessário um certo cuidado nessas críticas. Em primeiro lugar, não sei se me assusta ou se me dá raiva a inexistência de qualquer autocrítica. Se no cotidiano das organizações políticas da esquerda (entendida de forma ampla aqui) nos últimos, pelo menos, 10 anos, vivenciamos um intenso isolamento delas e uma convivência marcada muito mais por conflitos e unidades pragmáticas do que pela construção da desejada “unidade da esquerda”, é, então, espantoso o próprio sentimento de espanto diante do comportamento da “massa” que agora ocupa as ruas. Uso “massa” e não “classe média”, que tem sido o termo preferido para se referir ao contingente populacional que sai às ruas a partir do dia 17 e não saía antes, porque, da forma como penso, “classe média” não explica absolutamente nada e “massa” está muito relacionado ao que tenho pensado sobre essas expressões políticas.

Nós, paulistanos por nascimento, por necessidade ou por desejo, que militam de alguma(s) forma(s) e/ou passamos por uma formação intelectual em universidades públicas, temos o péssimo hábito de associar conservadorismo e autoritarismo à tal “classe média”. O problema disso é que implicita ou explicitamente associa posições políticas progressistas a uma “classe média esclarecida” (por exemplo, maioria esmagadora de estudantes da USP, moram nos bairros associados a esse segmento, têm sua renda e seu padrão de consumo) e… Aos pobres. Mas já vimos vários exemplos, teóricos e práticos, de que posições políticas que vão do progressismo ao comunismo, não nascem na cabeça das pessoas por geração espontânea. Em suma, meu maior incômodo com as críticas que têm sido feitas vêm da ausência de autocrítica associada à ignorância sobre o senso comum.

Durante dois anos passei por uma formação política muito diferente do que estava habituado na militância, para me tornar monitor do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio. Em todos os nossos encontros, reclamávamos do conservadorismo, da não mobilização, do isolamento da esquerda. E, ao invés de explicações sociológicas e históricas, recebíamos uma singela e dura resposta: “Ninguém tem feito a lição de casa! E agora querem reclamar que os trabalhadores e a juventude são conservadores?”. Simples e certeiro. O movimento estudantil da USP passou os últimos 5 anos (tempo em que estou lá) ensimesmado, realizando assembleias e reuniões sempre entre os mesmos militantes. Avisos soltos de que era necessário mudar a prática e ampliar a base do movimento eram vistos praticamente como populismo, e não como uma urgência para se evitar a armadilha na qual nos colocamos neste momento. Dou o exemplo da USP como elemento singular do genérico; não é exceção. Outro exemplo é o MST: o “Abril Vermelho” dos últimos anos chama a atenção pela diversidade de frentes (ocupação de terras, mas também de prédios públicos, marchas em centros urbanos, bloqueios de praças de pedágio, etc.), mas é inegável que o movimento perdeu muito do apoio social que já teve.

O meu ponto é que a palavra de ordem “Sem partido!” também é resultado da prática mais ou menos recente da esquerda brasileira, prática caracterizada, na verdade, pela ausência e pelo sectarismo. Junte-se a esta ausência a construção midiática da corrupção como problema estrutural do país e temos um senso comum apartidário: a melhor mediação dos próprios interesses é… Não ter mediação. A ampliação das pautas e os símbolos nacionalistas também são resultado desse processo. Não há dúvidas de que, na forma como têm sido expressos, são autoritários, conectados com a ideologia conservadora e matéria-prima para o fascismo. Mas também são fruto da experiência imediata das pessoas, experiência essa marcada pela ausência mencionada acima: se os partidos e movimentos de esquerda estão ausentes, são os instrumentos midiáticos, os locais de trabalho, as universidades (lembrando que a maior parte dos jovens brasileiros no ensino superior estão em universidades privadas) e por aí vai, que organizam a visão de mundo das pessoas. A cabeça das pessoas acaba organizada como os cadernos de um jornal impresso, os quadros de um jornal televisivo. Nas ruas, aparecem então as “notícias”: por aprovação de um projeto de lei, contra a corrupção, contra um político, etc. Quando a identidade de classe desaparece, a identidade nacional toma lugar: a agressão não é aos trabalhadores, e sim ao país.

Mas é tão preto no branco? Uma coisa que a militância e a formação em Ciências Sociais me ensinaram foi procurar contradições, detalhes, matizes, na realidade, porque é a síntese disso tudo que constitui a realidade. Se por um lado “o povo unido governa sem partido” é autoritário, por outro… É o comunismo. Ora, existem partidos porque existem interesses de classes, porque existe poder e existe disputa de poder. Se o comunismo é a superação desta realidade, realmente o povo governa sem partido. Se por um lado faixas escritas em inglês incomodam porque isso só poderia ser algo de “classe média”, por outro dá um caráter (mínimo, sim) de internacionalismo, de comunicar pra fora o que ocorre aqui. Se por um lado as pautas se ampliaram a ponto de não reivindicarem nada concretamente, por outro elas expressam um profundo descontentamento com a vida atual. As pessoas não estão insatisfeitas com o transporte público, ou com o sistema político, ou as prioridades dadas aos gastos públicos, ou… É com tudo. Só que o senso comum não organiza isso sistematicamente e “atira para todos os lados”. Se por um lado “nacionalistas” estão fazendo a “festa da democracia” e “passeatas pela paz”, por outro “nacionalistas” – hoje (20 de junho) mais do que nos outros dias – não estão parados em praças: estão caminhando, e algumas vezes tentando ocupar, para a porta do Congresso Nacional, do Itamaraty, da Prefeitura do Rio de Janeiro, da Prefeitura de Campinas, da Prefeitura de São Paulo, para a porta de estádios que sediam jogos da Copa das Confederações, parando rodovias, encurralando seu prefeito (http://www.paraibaurgente.com.br/s/chamadaum/prefeito-de-juazeiro-e-encurralado-em-banco-durante-manifestacao).

Para que fique claro: não estou defendendo a presença dos elementos nacionalistas nem uma pauta amorfa. O que eu estou retomando é algo que disse o, talvez, mais polêmico (em termos de interpretações) comunista do século XX – Antonio Gramsci. Todos são filósofos, mas cada um à sua maneira; todos precisam de uma visão de mundo para se guiar no dia-a-dia. Mas numa realidade contraditória, que ora se revela, ora se oculta, a visão de mundo é uma síntese entre senso comum e bom senso. Como escreveu o professor Ruy Braga:

“Essa juventude sabe que os partidos, notoriamente o PSDB e o PT, além de seus satélites, não estão à altura desse anseio. Afinal, há décadas eles são parte de uma mesma trama que a cada eleição negocia milhões de reais de financiamento por inúmeras “maracutaias” com construtoras e empresas de ônibus. Daí a formação desse sentimento antipartidário alimentado por um instinto plebeu igualitarista compreensivelmente resistente ao pesado e desigual jogo político parlamentar. Trata-se de um instinto progressista que merece ser elaborado e tornado coerente pelas forças coletivas que têm animado os atuais protestos.” (http://blogdaboitempo.com.br/2013/06/20/levantem-as-bandeiras/)

Não nego, de forma alguma, que estamos assistindo à presença de uma direita fascista organizada nesses protestos. Mas discordo do olhar generalizado que se tem lançado, vendo os atuais conflitos no interior das manifestações como uma polarização entre esquerda organizada e direita organizada. Como o senso comum é conservador, obviamente a direita organizada tem facilidade tem de capitalizar isso, e passar a sensação de ser muito maior do que é de fato.

Sabemos que um partido político é, acima de tudo, uma relação social com determinadas expressões simbólicas – vai além de ter ou não ter uma sigla, de ser institucionalizado ou não ser, de se vestir camisetas e levantar bandeiras ou não. Ter isso em mente é importante para elaborar que ações práticas devem ser tomadas diante dessa situação. Tenho visto reações que – reação por reação – diferem pouco do autoritarismo que temos visto: “o fascismo está na rua, é preciso fazer algo!”, “precisamos de direção e liderança!”. A atitude de manter as bandeiras e camisetas como exercício de liberdade de expressão e organização é louvável; mas não sei – é uma dúvida, não uma ironia – se é a mais inteligente. As maiores conquistas de legitimidade social dos partidos comunistas (não apenas no Brasil) ocorreram não apenas por suas expressões públicas, mas também por atividades conspiratórias e os chamados trabalhos “de formiga”. A dúvida (é dúvida, não uma ironia)  que se coloca, do meu ponto de vista, é: manter bandeiras e camisetas (mantendo o conflito) pode ter o efeito que desejamos? Ou diminuir a presença desses elementos e manter-se nos atos para tentar conhecer as pessoas, para criar laços mínimos de confiança e referência, e possivelmente mudar essa correlação de forças? Acho que esta possibilidade deve ser considerada justamente pelo que disse acima: o partido é uma relação; ele desaparece quando seus militantes desaparecem. O que tem ocorrido é, por um lado, a manutenção da presença explícita da esquerda, e por outro a hostilização extrema desta. O efeito é que, tanto forçada quanto por escolha própria, os militantes de esquerda começam a sair das manifestações. Repito que, aqui, são considerações de questionamento; ainda não sei qual é, de fato, a melhor atitude neste momento.

É necessária ainda duas considerações antes de encerrar o texto. A primeira diz respeito à palavra de ordem “Sem vandalismo!”. Não há dúvida de que há uma continuidade entre essa palavra de ordem e a defesa da mídia dos “protestos pacíficos”. A dicotomização criada pela imprensa, no dia 18 de junho, entre a “festa da democracia” na Avenida Paulista (com direito à animação digital da bandeira do Brasil no prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e o “vandalismo” no centro de São Paulo foi uma expressão singular dessa ideologia. Neste momento (22:05), Luiz Felipe Pondé dá entrevista ao vivo no BandNews e diz que “a polícia precisa cumprir seu papel de impor limites” e que “já estamos com um grau grave de desordem da ordem pública”, enquanto a tela está dividida entre a imagem ao vivo da Av. Paulista “pacífica” e a imagem de outras cidades com manifestações “violentas”; na terça-feira (18 de junho) a CBN entrevistou Theo Dias, professor de direito da Fundação Getúlio Vargas, na qual ele afirmou que Haddad precisava governar, e estava mais preocupado em pensar os termos do aumento da passagem do que endossar a Polícia Militar (http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-noite-total/2013/06/18/VIMOS-ESTA-SEMANA-ABUSOS-GRAVES-DE-MANIFESTANTES-E-DE-POLICIAIS.htm).

O que todas essas mensagens estão tentando inculcar? Duas naturalizações: que o indivíduo tem um fundo irracional que precisa ser controlado à força – ou seja, “vandalismo” é a violência imotivada; e que o indivíduo em grupo tem esse fundo potencializado. Cabe a nós desconstruir isso. As destruições do “patrimônio público” são um sinal claro de insatisfação com o Estado, com os seus serviços públicos sempre estrangulados pela “inflação”, com sua violência em todas as periferias; os saques a estabelecimentos privados nada mais são do que a realização dos desejos estúpidos de consumo que a sociedade capitalista precisa repetir, repetir, repetir, repetir para sempre vender, vender, vender e vender. Aliás, isso em relação a saques de relojoarias, por exemplo, dado que circula no Facebook a foto de uma senhora rendida no centro de São Paulo no dia 18 de junho com… Uma caixa de panelas ao seu lado e um brinquedo. Precisamos convencer as pessoas da mesma coisa que acredita Silvia Viana:

“Eu acabei de escutar, no boteco aqui em frente, o Marcelo Rezende afirmando: “eu também estou nas ruas com eles”. Para que não esteja, e saiba que não está, vale a pena escutar quem importa. O atendente do boteco, um motoboy e um morador de rua, que presta serviços esporádicos para o comércio local, conversavam: “Eles estão certos, quem é pobre que sabe o que é pagar ônibus”. “Mas tem o vandalismo…”. “Eu acho que só não tem que quebrar comércio pequeno, se quebrar o Congresso vou achar ótimo”. “Não é vandalismo não, que vandalismo é quando não tem porquê”.” (http://praticaradical.blogspot.com.br/2013/06/tecnicas-para-fabricacao-de-um-novo.html)

Mas é necessário conectar essa consideração com a segunda. Talvez poucas pessoas tenham se dado conta de que, dada a faixa etária da maior parte de quem está indo às ruas, esses atos constituem-se na primeira participação política de uma ou duas gerações! Se a referência de última grande mobilização de massas for o “Fora Collor!” – que, convenhamos, não foi lá muito diferente, ideologicamente, do que está ocorrendo – são 21 anos; se a referência for as manifestações e greves de fins dos anos 70 e início dos anos 80, são quase 35 anos. Isso significa que temos mais coisas para nos preocuparmos do que criticar pessoas que estão indo aos atos e tirando fotos para o site Instagram. São jovens de seu tempo. Assim como na USP (de novo, falo de onde estou atualmente) nunca funcionou o deboche em relação às pessoas inexperientes politicamente (por exemplo, a tachação de “ingênuos”), nas manifestações de rua também não irá surtir efeitos – ao menos, não os efeitos que desejamos.

Talvez todas essas considerações estejam vindo atrasadas, muito atrasadas. Mesmo assim, e mesmo não conseguindo perceber o que realmente deve fazer nossa esquerda, deslegitimada perante aos trabalhadores, agredida fisicamente pela direita organizada e fragmentada internamente, penso ser melhor escrevê-las, divulgá-las e debater, do que ficar em casa digitando “Socorro!” nas redes sociais, dizer que não dá para pensar em nada, que o sentimento é de impotência. Sei que é agressivo escrever isso, mas acho que não tem justificativa, após anos e anos de hipocrisia, de pragmatismo ao atacado e de sectarismo nas relações entre as organizações da esquerda, mostrar surpresa e indignação com o que estamos vivenciando. Além de injustificado, acho que só temos a perder no imobilismo.

Compartilho outra coisa que ouvi, mais de uma vez, durante minha formação no NEP 13 de Maio. Ao colocarmos a pergunta “O que fazer?” após repetidas críticas ao percurso do PT recebíamos, novamente, uma simples, dura e certeira resposta: “Se precisarmos reconstruir tudo desde o início, se for necessário aquele trabalho formiguinha pessoa a pessoa, qual o problema? Já fizemos isso tantas vezes na história, qual o problema de fazer mais uma?”.

Reitero que não estou diminuindo a gravidade do que está aparecendo. Mas também reitero a necessidade de autocrítica, aquela autocrítica sobre a qual todas as organizações de esquerda têm dito umas às outras que precisam fazer, mas que no fim só têm feito críticas. Todo mundo que está organizado hoje sabe que não se organizou da noite para o dia; essas pessoas sabem que não foi espontaneamente que passaram a defender um partido e/ou um movimento social. Sabem que a isso tudo antecederam relações de confiança, de proximidade, muitas conversas. Não são apenas argumentos que fazem as pessoas se organizarem; são também relações sociais.

Finalizo de um jeito bem ortodoxo. Apesar de não saber o que devemos fazer, acredito fortemente que a única coisa que pode mudar qualitativamente esse cenário é a entrada política de alguém que está sempre presente economicamente: a classe trabalhadora em sua identidade de classe. Infelizmente, a dinâmica histórica é muito irônica. Há menos de quatro anos, o Brasil passou alguns meses com greves nacionais de diversas categorias. Hoje, com todas essas mobilizações, não há nem qualquer convocação de greve, nem convocações sindicais para os trabalhadores incorporarem-se às manifestações. Estas têm ocorrido com trabalhadores, mas sem a classe trabalhadora. O trabalhador, por seu senso comum, é conservador; a classe trabalhadora é, em si, progressista e democrática, e, para si, revolucionária.

Que a história continue com suas ironias e presenciemos, como “raio em céu azul”, a emergência daquela que nada mais tem a perder e tudo a ganhar em seu radicalismo.

Gabriel Gomes Lourenço

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A passagem: vinte centavos ou efeito dominó?

Um senso comum antigo, enraizado e bem difundido é de que o perfil do brasileiro – quer dizer, a grosso modo, sem entrar nos perfis por classes sociais – é altamente conciliatório. Por aqui, a palavra “diálogo” arrasta consigo mais do que aqueles valores democráticos, mais do que aquela imagem estúpida de uma mesa de negociação que oculta a dominação efetiva .

Carrega sentimentos bem concretos de evitar conflitos; de não se ter que vivenciar a experiência de escutar palavras de ordem; de não se correr o risco da frágil rotina diária se quebrar e fazerem-se necessários ajustamentos de vidas tão apertadas.

No Brasil, a defesa popular do “diálogo” carrega sentimentos bem concretos de medo. A família e a escola nos ensinam, desde muito novos, que “violência gera violência”. Ensinam mesmo? Repetem como mantra, reza, hipnose, fórmula; mas nunca justificaram. Nunca nos disseram o que é exatamente violência, se existe mais de um tipo, e por que raios coisas tão diferentes (assim, por exemplo, um sequestro seguido de tortura e morte, e uma manifestação que bloqueia o tráfego de automóveis, o que tem sido dito também como violento) poderiam uma produzir a outra.

“Diálogo”, por aqui, tornou-se um dever. Não é mais uma possibilidade de se tomar decisões políticas, não é um método, não é um meio. Diálogo, aqui, não é bonito. É inculcado como obrigação oposta à manifestação na rua, no espaço público, que faz as pessoas olharem-se, ouvirem-se. A reunião, o momento no qual o indivíduo torna-se grupo, tem cheiro, tem cor, tem dor, tem passado e deseja ter futuro. Protestar cria, por tênue que seja, laços de solidariedade e confiança. Tem-se a expectativa de que as pessoas ao seu lado não vão simplesmente te abandonar em situações tensas. Reunir-se é semente de responsabilidade.

Não à toa, a defesa governamental do “diálogo” carrega, ao contrário da defesa popular, não o medo, mas o autoritarismo. A vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão (PCdoB), disse, em relação ao ato do dia 11 de junho:

Eles não iniciaram nenhum tipo de diálogo, começaram com as manifestações. O objetivo parece querer criar um fato na cidade, complicar a vida da cidade. Fazer paralisações para dar destaque a uma reivindicação, uma bandeira. Esse não é o melhor caminho, pelo contrário” (http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/nessas-condicoes-dialogo-nao-e-possivel-diz-vice-de-haddad,42e708224183f310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html)

Assim como o próprio prefeito, Fernando Haddad (PT):

Eu disse e repito que não vou dialogar em uma situação de violência, falei várias vezes. A renuncia à violência é pressuposto ao diálogo. A prefeitura dialoga com todos os movimentos sociais, não tem preconceito” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/nao-vou-dialogar-em-situacao-de-violencia-diz-haddad-apos-protesto.html)

Colocar o diálogo como oposto à manifestação é a forma mais rotineira de um governo, ao mesmo tempo, deslegitimar um movimento social e não sentir-se pressionado a recuar em decisões. As mesas de negociação, sem pressão organizada, servem como propaganda política; governos usam disso para justificar decisões. É ingenuidade tomar como pressuposto de que os governos municipal e estadual de São Paulo desconheciam a insatisfação provocada por aumento das passagens do transporte público, de que desconhecem as pautas.

É pouco? Pois bem. Para quem acompanhou a última campanha eleitoral municipal, sabe que houve muita polêmica em torno da candidatura Haddad, apoiar ou não, etc. No final do ano passado, ou início deste ano, quando tornou-se público que haveria um aumento da passagem neste primeiro semestre, defensores, “críticos” ou não, de Haddad, argumentaram, seguidos pelo mesmo, de que a decisão foi tomada durante o exercício de Gilberto Kassab, dado que o orçamento público é decidido no ano anterior. Estranhamente, durante os atos, nos deparamos com a seguinte afirmação:

“Haddad também lembrou que o reajuste do valor da passagem de ônibus ficou abaixo do preço esperado. “Nós fizemos um esforço orçamentário, a prefeitura de São Paulo, também acompanhados pelo governo do estado, conseguimos junto ao governo federal uma desoneração de tributos, o que permitiu um reajuste bem abaixo da inflação. Um reajuste em 2 anos e meio da ordem de 6% contra uma inflação acumulada de mais de 15%. Eu estou cumprindo com aquilo que eu prometi há menos de um ano, entendo que esse é o caminho para melhorar a qualidade do transporte público.”” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/nao-vou-dialogar-em-situacao-de-violencia-diz-haddad-apos-protesto.html)

Calma lá, prefeito. Se “democracia é assumir responsabilidade”, como você mesmo disse, então assuma as suas. Afinal de contas, você e seu governo puderam ou não exercer decisões sobre o preço da passagem?

É pouco? Pois bem. Se “a renúncia à violência é o pressuposto ao diálogo”, você há de convir, prefeito, de que a possibilidade de mudar de posição também deve ser pressuposto ao diálogo. Senão, dialogar para quê? Não queremos tomar café contigo. Mas você disse:

““Havíamos nos comprometido a dar um reajuste muito abaixo da inflação. Se fosse dada a inflação, o valor da tarifa seria muito maior do que foi dado no momento. Então, o valor será mantido porque já está muito abaixo da inflação acumulada”, disse o prefeito, em entrevista à imprensa.” (http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2013/06/13/interna_brasil,371330/haddad-valor-da-tarifas-de-onibus-de-sp-sera-mantido-apesar-dos-protestos.shtml)

Estamos curiosos, senhor prefeito, para saber sobre o que você queria dialogar então. Será que se planejava para reproduzir seu programa de governo, como fez seu partido (http://www.pt.org.br/noticias/view/sp_executiva_municipal_do_pt_divulga_nota_sobre_manifestacoes_contra_o_aume)? Pra isso, ficamos com o professor Lincoln Secco:

“A Direção do PT aprendeu a fazer aquilo que criticava: movimentos sociais só servem como correias de transmissão da política eleitoral do partido. Se não são “centralizados” (como diz o prefeito), dirigidos ou tutelados eles de nada servem. São uma quadrilha. Que saudades do PT quando ele era aquela quadrilha…” (http://www.viomundo.com.br/politica/lincoln-secco-que-saudades-do-pt-quando-ele-era-aquela-quadrilha.html)

Este seu samba, prefeito, é de muito mal gosto, diga-se de passagem*.

A família e a escola também nos “ensinam” outras coisas. Coisas que os locais de trabalho, as faculdades, os jornais, os canais de televisão e de rádio também se esforçam muito para que internalizemos e passemos adiante. Uma dessas é a inflação: devemos sempre nos lembrar, quando acharmos que o salário é pouco e as coisas que precisamos são caras, que os governantes e empresários não podem fazer muita coisa porque existe inflação. Certo, Haddad?

Não vai ter uma linha neste texto sobre o que é inflação, o que não é, o quanto foi. E não precisa. Por que precisamos nos calar diante do argumento da inflação, se o modelo do transporte público é de uma concessão à iniciativa privada, que lucra (LUCRA) a partir de um serviço essencial, recebendo subsídios públicos?! O Estado dá dinheiro para as empresas lucrarem e quem governa quer restringir a discussão nos termos da inflação!

É como estar num labirinto e sempre dar com a cara numa parede. E é por ser irracional que faz sentido não ser o prefeito, não ser o governador, não ser qualquer governante que vai na rua encontrar o movimento social, mas sim a Polícia Militar. As instituições militares são, por excelência, avessas à argumentação. É necessário manter a hierarquia interna, as posições de mando e obediência. Não faz sentido argumentar internamente. É um risco à corporação militar argumentar externamente.

É por isso que não faz sentido tratar ações da Polícia Militar em termos de “excessos”, “desmandos”, “desvio de conduta”; sua razão de ser é a ostensividade. No último ato em São Paulo supostamente a repressão policial teve início por tentativa de impedir os manifestantes bloquearem a Avenida Paulista. O resultado foi a Avenida Paulista bloqueada pela repressão policial. Não importava manter o tráfego; importava o cartão-postal da cidade não aparecer ocupado por manifestantes na véspera da Copa do Mundo, a ser sediada no país. Importa a imagem de segurança, mesmo que sejam tratados como risco à segurança manifestantes, jornalistas, transeuntes. A segurança da cidade é a não segurança de seus moradores.

Não faz sentido porque os policiais são treinados para o excesso. Se o estado de exceção é a norma, o excesso é o pleno exercício da força. O sadismo (em termos bem grosseiros), como prazer próprio na dor alheia, é a identidade do corpo policial em ação:

Todos os jornais que circularam essa foto escreveram que o casal da imagem não estava participando do ato.

São vários os vídeos que circulam registrando ameaças de policiais às pessoas que filmavam e fotografavam os atos. A foto é um exemplo, singular pelo rosto descoberto do policial que agride.

É pouco? Pois bem. Uma das pérolas que surgiram após o último ato foi uma reportagem do G1 com entrevistas de ex-PMs sobre a ação policial. Um deles diz:

“O mesmo entendimento é do ex-major da PM, Diogenes Viegas Talli Lucca. “A PM usou o recurso adequado para aquela ocasião. A única falha da polícia foi a de não ter entrado com força máxima na terça-feira [durante o terceiro protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) na capital]. Se tivesse usado a Tropa de Choque na terça, a manifestação teria diminuído na quinta”.” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/estrategia-da-pm-na-consolacao-foi-correta-dizem-especialistas.html)

De novo, não importa manter o tráfego nas vias onde ocorrem os protestos. Importa forçar a diminuição dos protestos, importa deslegitimá-los. Importa o excesso para que ocorra… O não protesto. Se manter o tráfego normal fosse interesse dos governos, veríamos a notícia abaixo?

“São Paulo registrou, às 19h30 desta quarta-feira (12), o maior congestionamento do ano. Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), no horário, a cidade tinha 282 km de lentidão. O índice é o terceiro maior já registrado na história da medição da companhia.” (http://noticias.r7.com/transito/noticias/sp-bate-recorde-de-transito-do-ano-com-282-km-de-congestionamento-20130612.html)

Importante: no dia 12 de junho não houve qualquer manifestação contra o aumento da passagem.

O resultado até agora é mais atos programados. Chega a ser mais pitoresca do que histórica a situação: a repressão policial como resposta do Estado, que não se importa em deixar clara sua postura de defender os interesses de quem lucra com os serviços essenciais da população, dá consistência ao movimento social.

Tenho pensado, de uns dois anos para cá, que no Brasil – e imagino que não só aqui – há um contraste entre duas formas de associação, contraste oculto por uma síntese de ambas. Tem-se a impressão de que, diferente do que já foi, as pessoas não se organizam mais para reivindicar, sejam demandas específicas, sejam reivindicações de classe. De que vivemos um ápice de individualismo, de cisão dos laços sociais, de estreitamento do tempo disponível para a ação política. Contudo, há muito associativismo no Brasil: torcidas organizadas, empresas juniores em faculdades, escolas de samba, grupos de igrejas, grupos de trabalhos voluntários, além, é claro, de partidos, centros acadêmicos, grêmios, etc.

Acho que não só nós temos medo. Quem manda e quem lucra também têm medo. Medo de se reconstituírem as identidades que, num esteio de pólvora, fazem o barril da história explodir.

Gabriel Gomes Lourenço

* Essa passagem foi gratuita.

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Três momentos

Normalmente, eu sou bem contra “fluxos de consciência” e poemas que são praticamente fotos: instantâneos de momentos.

Não me levem a mal, mas acho que a forma textual tem características próprias, e penso que os melhores resultados são os mais bem trabalhados.

Isso posto, abro uma exceção. Ok, abrir para si mesmo é sempre mais fácil, admito. Mas como nunca escrevi poesia e minhas tentativas são recentes, estou me dando espaço para algumas “pílulas”…

_______________________

Sem título

Nossas aspirações suspiravam

enquanto suspirávamos

nossas aspirações

 

Sem título

Quando o sol assomou

me arrependi pelo fogo sem fim

Pois é o ferro em brasa

aquele que deixa marcas.

 

Três Marias

Uma Maria

e a humanidade, séria, tornou-se cristã.

Duas Marias

e a humanidade, desconsolada,

grita a fome de todas as suas Marias.

Três Marias

e o mundo, por um instante, parou

e sorriu

quando o céu mudou de cor.

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Passagem (poema)

Passagem

Estou indo.
Espere-me onde o rio dobra com tanta força
que as margens sangram nossas promessas
nunca ditas

Estou a caminho.
Espere-me sob a oliveira que torce a si mesma
que nos cobriu e amou com sua sombra
e amou como a mãe que cobre o filho
e amou como o irmão que cobre o irmão
e amou com sua sombra
quando nos amávamos sem nos cobrir

Acho que estou partindo.
Amarrei uma ponta de fio da camisa numa pedra
e a saudade estica no meu andar

Mas a malha afina.
O amor trançado
desfaz-se numa saudade esguia
até aquela ponta cansar de sonhar
de segurar
de desejar

E nosso cheiro descosturar pela camisa.

Mas me espere.
Entre a humanidade e a solidão
aquela terra talvez possa
nos permitir outra vez

que amores atravessados
partidos
reconstituídos
reconciliados
realizados
aquela terra sempre germina

Gabriel Lourenço

03-05-2013

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Novo poema – 2

O que Mario não disse – Gabriel Lourenço

Não o culpe por não ter dito
não o culpe por talvez ter esquecido
que uma estratégia pode tornar-se invertida

Ainda mais profunda e mais simples
mero resultado de táticas
pensadas, esbaforidas

Pode ser que a necessidade lançada
volte-se ao lançador
Pode ser que a memória construída
tome a pele do construtor

Mas não desista dos planos, nem do objetivo
e sim, troque as peças de lugar

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Novo poema

Hellicoide – Gabriel L.

Estou o que não fiz de mim
o que aceitei como belo
o que vem natural
como o cavalo-dádiva
que metamorfoseia em troianos

Isso que sou não é soma
não se soma
se dissipa e remonta
agora com os troianos sobre cavalos

Quando estar vira ser?
Estar miúdo, mirrado, mal começado
é já ser mal terminado?
“Pois quando eras criança
precipitava-tes no adulto planejado
e este agora retorna à infância comida”

Pergunto-me se sou um troiano
se sou seu cavalo.
Respondem-me que estou
chão sendo usado, terra batida
solo de fertilidade pisada

Movo-me para que seja
enfim
o avesso – e não a mera inversão
Do que me fizeram estar

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