E também ao despropósito das eleições presidenciais

Depois de tanto tempo com o blog parado, as duas postagens mais recentes apresentam duas características: 1) uma relativa discordância entre os editores de Panscopia; 2) atualização do blog justamente em período eleitoral. Destaco especialmente o segundo item como autocrítica, pois por um lado a nossa proposta é fruto “(…) de simples operação matemática – uma realidade que não mudou + pessoas que fingem tentar mudar a realidade – [e por isso] é que se decidiu pela criação de Panscopia, instrumento para instrumentalizar”. Só que, por outro lado, reproduzimos o mesmo pragmatismo implícito na crítica inicial: sem estarmos nos dedicando a alguma análise rigorosa de, se não todos, pelo menos alguns elementos estruturais e conjunturais do Brasil agora, pretendemos nos manifestar por “breves comentários”.

Deixo esta autocrítica publicada aqui não por formalismo ou por “desencargo de consciência”, mas como mais uma maneira de forçar eu e Danilo a levarmos isto mais a sério, já que nunca pensamos como mero blog, e sim como ponto de partida de outros projetos.

Ao ponto.

Assim como Danilo, desliguei-me praticamente do PT há um ano, por motivos semelhantes aos resumidos por ele. Na verdade, ainda é uma pendência nossa uma elaboração de “autoesclarecimento”, essencial como ponto de chegada que cumpre papel também de ponto de partida. Além de uma certa desorganização, não priorizamos isso principalmente pelo texto que publicamos combatendo o rídiculo republicanismo argumentado pelo Tarso Genro e Vinicius Wu; contudo, é importante lembrarmos que naquela ocasião ainda DEFENDÍAMOS o PT como alternativa para a luta socialista revolucionária. De lá para cá, passando pela saída de ambos do PT, fizemos nossas reflexões, individuais e conjuntamente, mas de forma mais fragmentada e dispersa, não sintetizada. Por isso, é uma pendência nossa, para a própria elaboração coerente e unitária que queremos imprimir a Panscopia e nossa militância.

Por que retomo isso? Bem, primeiro obviamente para marcar publicamente a pendência e o compromisso que temos em fazer isso. E segundo, porque parece-me que tal pendência encontra-se em boa parte dos partidos da esquerda brasileira que, teoricamente, romperam com o PT – rompimento no sentido estratégico-tático, e não no moralista (ou seja, justificado por casos de corrupção, “falta de ética”, etc.). Claro, é indiscutível o fato de que muitos trabalhadores e profissionais liberais que hoje “rompem” com o PT é devido à dimensão moral, seja por casos julgados e comprovados, seja apenas por denúncias não comprovadas; mas não é isso que deva orientar, em primeiro lugar, as decisões das organizações revolucionárias*:

1 – Em primeiro lugar, é estapafúrdio afirmar que existe uma tentativa de golpe em curso, e que, mais do que eleger Dilma, precisamos “armar o contragolpe”. Há certas categorias teóricas – que, enquanto tais, são reproduções ideadas do movimento da realidade – cuja redução é justificada em certas lutas políticas; mas há outras que não podem ser instrumento de mera agitação, restrição que defendo a “golpe”. De uma forma geral, golpe refere-se sempre a tentativas de tomar um dado poder político (que pode ir desde um Centro Acadêmico ao comando do Estado) por alguma via que nega ou se contrapõe aos parâmetros jurídicos-legais-contratuais definidos previamente para uma disputa, podendo ocorrer durante o próprio período temporal estabelecido para a disputa ou fora dele. Ou seja, em se tratando da disputa para gerir o poder de Estado, falar em golpe é falar dos limites do Estado Democrático Republicano! Refere-se a uma situação de intenso conflito interno à coalizão (sempre instável, longe da aparência monolítica caricaturada pela esquerda) das classes dominantes, que pode estar acompanhada ou não de uma mobilização extra-ordinária das classes trabalhadoras; mas, de qualquer forma, refere-se sempre a um conflito interno aos setores burgueses (uma situação limite de tomada do poder pelos trabalhadores não é golpe de Estado, é revolução – que pode degringolar em seu desenvolvimento, obviamente), que extrapola os próprios limites constitucionais, jurídico-legais, etc.

2 – Assim, tendo em conta as amplas proporções de uma situação de golpe, tanto quanto às consequências para os trabalhadores, quanto ao grau de divergência entre os setores burgueses, justifico minha posição de não usarmos “golpe” como agitação em qualquer disputa política, ainda mais na qual é objeto de nosso interesse, o segundo turno das eleições presidenciais de 2010. O que há é um forte apelo de marketing, de ambas as partes, para quebra de votos do adversário (ou da adversária). São amplos e diversos os ataques publicitários: acusações na propaganda eleitoral transmitida por televisão e rádio; panfletos (encomendados diretamente, ou produzidos por setores que apoiam cada uma das candidaturas) distribuidos, por exemplo, em igrejas, cultos, missas, celebrações religiosas, mas também em universidades, filas, etc.; micropostagens por usuários que apoiam uma ou outra candidatura no Twitter; as já clássicas “correntes” (iniciadas por “Enc:” ou “Fwd:”, com letras maiúsculas no campo “Assunto”) enviadas aos e-mails; spams vindos de redes virtuais de ambas as candidaturas; etc. As acusações têm sido de todos os tipos: oficialmente e objetivamente verdadeiras, oficialmente falsas mas objetivamente verdadeiras, e oficialmente verdadeiras mas objetivamente falsas (incomum, mas não impossível).

3 – Ou seja, as duas candidaturas estão recorrendo às mesmas táticas, com o mesmo esvaziamento programático, e uso exclusivo do apelo marqueteiro: recorre-se a informações rápidas, curtas e sempre duvidosas.  Ora, não apenas a briga entre carolas ridícula, mas os próprios números aclamados de lado a lado. Acertadamente, um professor com quem tive aula de Estatística disse certa vez: “Se você apertar os números, os faz falar o que você quiser”. Não podemos nunca esquecer que estatística também é ideologia. Contudo, por mais “antiético” que pensemos ser essa postura, ela não aponta para qualquer golpe.

4 – Mas, por outro lado, creio que o mais delicado é justamente os setores da esquerda que estão apoiando “criticamente” Dilma Rousseff estarem fazendo apenas a parte do “apoio”. Na medida em que Dilma, sua coordenação de campanha, e sua coligação aderiram à tática de Serra e sua coligação, também estão contribuindo para um segundo turno “conservador”, “moralista”, “retrógrado”, etc. Refiro-me não apenas à problemática do aborto, mas à evangelização de um modo geral da campanha presidencial. Em carta recente isso fica muito claro, além da afirmação feita em debate televisivo de que ela vai ganhar “se Deus quiser”. Uso as aspas porque, antes de eu usar aqueles termos, todos os grupos em torno de Dilma usaram-nos para definir a campanha feita pela candidatura Serra. Tomo as palavras que nós, que nos pretendemos esquerda socialista revolucionária, usamos para criticar a candidatura Serra, para transformar em crítico o apoio dado à candidatura Dilma. Não é uma pretensão minha; apenas acho insuficiente a crítica ficar na dimensão estratégica.

5 – Por isso, discordo de afirmações como a dada por Maria Rita Kehl, em entrevista à Carta Capital (15/10/10), quando ela afirma que “é responsabilidade sim, do PSDB e da campanha Serra o tom fascistóide que estas coisas estão adquirindo”. Discordo por avaliar que é insuficiente: é necessário reconhecer que as duas candidaturas têm sido ativas nesse processo de “endireitamento” da campanha do segundo turno. Nós não podemos nos surpreender, no futuro, se aparecerem efeitos disso em um governo Dilma; não temos nem controle, nem ao menos informações, sobre os acordos e negociações que estão sendo feitas para aumentar o apoio à candidatura Dilma, nem em relação aos setores religiosos, nem em relação a qualquer outro. Os principais acordos não são feitos publicamente. Assim, um governo Dilma mais conservador do que o esperado é bem factível, e os socialistas que estão apoiando esta candidatura precisam reconhecer, desde já, a contribuição que têm em sua provável eleição. Não existe retroatividade quando se pretende “lavar as mãos”.

6 – Para encerrar, uma síntese contrapondo-me, em certa medida, ao Danilo, e a todo mundo que está compartilhando midiaticamente da mesma opinião – claro, porque não é só Veja, Globo, SBT, Época, IstoÉ, Folha, Estadão que tomam posição; Carta Capital, Conversa Afiada, Brasil de Fato, e vários professores e intelectuais bem conhecidos também: a) falar em “golpe” na atual conjuntura é descabido, exageradamente panfletário e nos coloca lentes míopes para fazer análises de conjuntura futuras e planejamento de ações; b) óbvio que o foco programático é o mais importante. Só que agora “seria” o mais importante; quem tinha expectativa de que a candidatura Dilma, em confronto com Serra, colocaria neste plano ainda não conseguiu – ou não quer – perceber o caráter maduro do desenvolvimento capitalista brasileiro iniciado pelo governo FHC e acelerado (quem sabe, levado ao máximo) pelo governo Lula. Aliás, também a campanha de Dilma comprova isso: as propostas colocadas no mero formato de números comprovam o projeto de expansão do capitalismo brasileiro; c) pulando para os itens 4 e 5 da postagem do Danilo, concordo que não há “falsa polarização”. Estamos com um profundo grau de acomodamento das lutas sociais, da consciência de classe, de fortalecimento da hegemonia democrática-liberal que fazem, a meu ver, com que seja desnecessário o capital organizar duas candidaturas apenas para “ludibriar” os trabalhadores; a permanência do conflito PT x PSDB é algo que vem, por um lado, de “tradição”, mas por outro, de algum conflito político atual que a esquerda socialista ainda não conseguiu desvelar satisfatoriamente. Sendo algo mais profundo, a vitória de uma ou outra candidatura tem consequências diferentes para as táticas dos socialistas revolucionários. Contudo, ao mesmo tempo que Serra reprimiu desde o início as manifestações dos professores da rede estadual de São Paulo ocorridas este ano, na França o presidente Nicolas Sarkozy, reconhecido até por jornais como a Folha de SP por ser da direita conservadora francesa, “demorou” para tomar uma atitude semelhante em relação às mobilizações recentes devido à reforma da previdência, que estiveram num crescente, até passar dos 2 milhões de pessoas mobilizadas (!). O que quero dizer é que os grupos políticos dominantes não são simplesmente “brutos”, como a esquerda brasileira estereotipa; as situações dadas, uma certa correlação de forças, os interesses em jogo, e vários outros itens, podem (ou não) se sobrepor à concepção que tal ou qual pessoa, tal ou qual grupo, têm sobre a relação que um governo deve ter com mobilizações sociais. Não dá para chamar voto na Dilma simplesmente porque “ela conversa” e o Serra “reprime”; podemos nos surpreender com esses simplismos. Quanto à questão das relações internacionais, tenho pouquíssimas informações para emitir uma avaliação, e por isso não comentarei nada a respeito; d) e para voltar ao item 3: a realidade presente coloca a decisão de apoiar ou não apoiar a Dilma. Só que ela é muito mais complexa do que a esquerda “virtual” – que está vivendo de blogs, twitter, facebook e vídeos no YouTube – está pintando. Escrevi esta postagem justamente para dizer que há muitas coisas por trás de uma decisão plebiscitária, e que temos que parar de falar tão facilmente dos “interesses dos trabalhadores” para defendermos opiniões que estão beirando muito a desejos e preferências midiáticas-emocionais-pessoais.

Por fim, quero fazer um rápido comentário sobre a carta de renúncia do José Arbex Jr. do Conselho Editorial do jornal Brasil de Fato. Acho que apenas ironizar a decisão dele, por ser a segunda e numa situação semelhante à ocorrida em 2006, não acrescenta nada; para mim, isso é secundário. Contudo, não acrescenta nada também a construção que ele faz de um “grande campo”, onde estão juntos interesses sórdidos e conscientes e movimentos cooptados. Também só cria problemas ao colocar um sinal de igual entre MST de um lado, e Brasil de Fato de outro, sem explicar o que justifica essa operação. E em terceiro lugar, é altamente inconsequente por esquecer que no primeiro turno o jornal foi parceiro na realização do único debate entre os quatro candidatos colocados pela esquerda socialista. A despeito da qualidade do próprio debate, é descabida a afirmação de que o jornal tornou-se mero “panfleto” da candidatura Dilma.

 

* Sei que parece demasiado panfletário usar, re-usar e tre-usar  o termo ‘revolucionário’. Só que numa época na qual até Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, é filiado a um partido ‘socialista’, penso que é necessária uma precisão a respeito do campo ao qual faço referência.

 

Gabriel Lourenço é estudante de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo.

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