O confronto ideológico é mais importante

Escrevo este texto alguamas horas após ter encerrado o debate presidencial do 2° turno na RedeTV!.

O debate, ou melhor, o desempenho de Dilma no debate – a meu ver, regular – não modificou algumas das impressões que vim desenvolvendo nessa última semana.

Novamente, este texto não propõe a se aprofundar em alguma discussão; o parco tempo de que disponho não me permite dedicar mais de uma hora por dia em frente à tela do computador.

Então let’s go.

Não é verdade que essa eleição expressa a luta de classes, antes o contrário – a luta de classes está se expressando no esforço de ser apagada pelas duas candidaturas!

Dilma está respondendo ao conservadorismo reforçando os valores conservadores, ao legitimar os marcos em que a disputa está sendo feita.

Prova disso foi a incapacidade de reverter, pela esquerda, a discussão sobre o aborto, como se patenteia na Mensagem da Dilma[1], divulgada em 15 de Outubro, poucos dias atrás: “Sou  pessoalmente  contra  o  aborto  e  defendo  a manutenção  da  legislação atual sobre o assunto”.

É uma pena, mas o quadro está absolutamente desenhado e, ao que parece, não há muito a ser feito.

Do ponto de vista tático e eleitoral, essa postura pode até fazer algum sentido. Porém, do ponto vista simbólico e ideológico, é profundamente ruim. De modo que Serra poderá até não vencer as eleições, mas decerto terá vencido o confronto no campo ideológico; ganhar no campo ideológico é ainda mais perigoso do que no campo eleitoral, pois acaba por “limpar o terreno” para invectivas futuras (um golpe, por exemplo).

O conservadorismo que tem caracterizado o pretenso contra-ataque de Dilma revela-nos, por um lado, o esgotamento ideológico do PT; por outro lado, e como consequência direta, revela também a necessidade de sua superação. Compreendo que esse ponto, para alguns, em particular, é bastante controverso. Mas só pode ser resolvido por nós, da esquerda socialista.

Três considerações, no entanto, convencem-me a votar em Dilma.

Em primeiro lugar, a razão mais simples e, por isso mesmo, talvez a principal: nem o lulismo, nem o PT serão superados numa derrota eleitoral, mas sim com uma forte reorganização e mobilização da esquerda, a qual conduza a um novo processo de amadurecimento político que tenha à sua frente a classe trabalhadora não apenas se vendo como classe, mas como sujeito histórico. Isso leva tempo – apesar de que precisa ser feito, considerando que a revolução socialista esteja na ordem do dia.

Além disso, e em segundo lugar, a oposição aventada por Plínio de Arruda Sampaio em um dos debates do primeiro turno é a mais adequada para a tomada de decisão neste segundo turno: melhorar a vida do povo x resolver os problemas do país. Entre Serra e Dilma, não há dúvidas de que Dilma melhora “mais” a vida do povo.

Em terceiro lugar, esta última consideração: a disputa que se colocou no segundo turno ganha sua importância pela tônica protofascista que passou a caracterizar a campanha de Serra, nas últimas semanas. Do contrário não apareceriam diferenças substanciais entre uma candidatura e outra. Isso não pode nos levar à conclusão de que o primeiro turno não passou de uma “brincadeira”, desconsiderando o papel importantíssimo, do ponto de vista ideológico e pedagógico, que desempenhou as candidaturas dos camaradas Plínio de Arruda Sampaio(PSOL), Ivan Pinheiro(PCB) e Zé Maria(PSTU). Não se pode, então, interpretar o segundo turno desta maneira: “Acabou-se a brincadeira. Agora é segundo turno. Somos nós, da esquerda, contra o inimigo, da direita. E você deve escolher um lado. Ou você está conosco ou com eles![2]. Acontece que com a deseducação político-ideológica que vem sendo perpetrada pela campanha de Serra, corre-se o risco de se perder o pouco que se conseguiu assomar durante o primeiro turno.

Tão-somente por essas três razões é que a esquerda socialista deve intervir. A disputa ideológica é o que mais nos interessa neste momento.

Danilo Vilela é estudante de Direito da UFS

 


[2] Destaco que essa observação foi feita por Leomir Hilário, sergipano, socialista e psicólogo, editor do Blog Psicanálise Aberta, no qual ele aborda questões da contemporaneidade através do arcabouço teórico psicanalítico. O comentário, entretanto, foi feito numa discussão de uma comunidade de Orkut. O endereço do Blog Psicanálise Aberta é: http://psicanaliseaberta.blogspot.com/

 

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