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A morte do libanês

A morte do libanês

Pluma nunca soube se sua opinião era um preconceito, mas sentia que era fora de lugar um descendente de libaneses ser tão escandaloso. Incomodava-se porque o escândalo assemelha-se a bebedeiras. Não àquelas dos finais de semana, já agendadas nos celulares, divulgadas em redes sociais eletrônicas, como se fosse o pagamento periódico de contas, o almoço de família com aquela lasanha que sua avó faz para estas ocasiões, ou até o sexo anônimo como ato de liberdade, porque um relacionamento monogâmico estável é mera opressão; sim, o sexo agendado para reagir contra a rotinização da vida.

Não. A aproximação é com a bebedeira em uma quarta-feira, quando se quer, de tempos em tempos, dar algum sentido à expressão “dia útil”. O escândalo é o indivíduo dizendo que existe, sentindo-se caluniado por chamarem a existência diária em grupos tão iguaizinhos de liberdade de expressão individual.

Para ela, aquele libanês com seu escândalo diário, publicizando o privado do apartamento (ela até mencionou certa vez uma briga até por causa de uma privada), era fora de lugar. Enxertada há poucos meses no Paraíso, ainda não havia enraizado o suficiente para conhecer tudo que existia abaixo da superfície, e o julgamento que fazia da vida local era restrito na mente por ser restrito o desenho geográfico e a vida comportamental no qual era baseado. Aquela situação despertava-lhe a atenção por sua ocorrência em bairro originalmente marcado por famílias libanesas e sírias, tumultuado nas imediações da estação do metrô e da Rua Vergueiro, provincianamente silencioso nas direções do Cambuci e Aclimação. Aquilo era fora de lugar por ele ser libanês, por não respeitar o que significa habitar um apartamento em São Paulo e por abalar a analogia entre escândalo e bebedeira de quarta-feira.

Não se trata apenas do significado, mas do sentimento, tão mais profundo quanto mais silencioso, de dissolver-se nos finos tapumes de um apartamento. Pluma tentava amenizar seu incômodo justificando que o prédio, com seus dois lances de escada, sem elevador, sem porteiro, praticamente sem síndico, com uma garagem cujo portão passava mais tempo manual do que automático, transmitia aos seus moradores uma sensação de transição entre a casa e o apartamento moderníssimo (estes de 24m², localizados em edifícios de pelo menos 15 andares, construídos em 6 meses); e a transição coloca para as pessoas a bifurcação entre resistir ou consentir. O libanês devia ser um bravo defensor da tradição.

Os escândalos, surpreendentes enquanto forma, nada tinham de curioso em seu conteúdo. Brigas e discussões com a esposa, igualmente incontida. Mas esta era brasileira, raça dos que berram quando ganham mil reais na loteria, gritam quando são fechados no trânsito. Só se controlam mesmo quando patrão diz que o corte de salário é por causa do aumento dos custos operacionais e dos redirecionamentos estratégicos e de gestão.

Um dos escândalos do qual Pluma melhor se recordava era por causa do gato. Ela não precisava esforçar-se para manter na memória a situação; não só pela recorrência do motivo, mas também pela inaudita conclusão de que há no empreendimento divino um grau hierárquico intermediário entre Deus e eclesiástico, ocupado pelo gato: se o reverendo instaura o amor e o respeito por toda a vida no interior do casal, o felino frequentemente desautorizava a ordem, acreditando          que a jornada conjugal deveria seguir por outras vias. Infelizmente, como em todas as outra brigas, ela nunca soube os detalhes, cada estopim particular, cada partitura orquestrada pelo animal que desembocava naqueles dramas italianos.

Nos escândalos característicos nunca é possível distinguir frases completas; raramente toma-se conhecimento do início e do fim. Eles eram apreendidos por Pluma (voyeur por nomeação e não por mérito próprio) somente em seus contornos; acordava sempre numa galeria de intervenções impressionistas.

Foi num sábado acalorado, fins de verão, que Pluma presenciou, sem poder olhar, o encontro entre a vida e o substancioso noticiário nacional: “Você acha o que, que vou pegar a faca e te matar?”. Era a única frase da qual se recordava ao relatar outro episódio da falência daquele casamento. Imediatamente debruçou-se sobre a janela, mas encontrou apenas a mesma vista cega de todas as vezes que ansiava por ver os personagens e dava somente com o cenário secundário. As janelas internas dos apartamentos fitavam umas às outras perpendicularmente, conformando três cruzes imaginárias, uma por andar. O térreo, espaço libanês, era ladrilhado, mas isso não bastava para amenizar o clima sertanejo e espinhoso que pairava sobre aquele casal como densa nuvem. Comprovava-o o muro que constituía a lateral do prédio. Contíguo a outro imóvel, agarrava-se a este em angústia desesperada, desejando apenas correr para não mais assistir quieto ao domínio de um grilhão civil e religioso sobre seres que se tornaram escravos mútuos. O outro muro nada podia fazer, e talvez por isso mesmo desfazia-se em pranto tão convulsivo, encharcando seu companheiro ao ponto de criar grandes infiltrações no apartamento de Pluma. A tristeza que naquele cubo se instalara era de tal monta que também o apartamento de Pluma não conseguia fazer-se indiferente: quanto mais os gritos apunhalavam as palavras, tanto mais as infiltrações chorosas soltavam a camada homogênea de tinta que cobria parte da sala de Pluma, exibindo uma estrutura composta de blocos já fracionados, ainda que com fronteiras bem definidas entre si.

Dizia Pluma que nas últimas semanas escasseavam as manifestações da saúde matrimonial. Isso passou a perturbá-la gradativamente. Um pequeno e frequente sentimento de ansiedade aguardava-lhe sorrindo retornar das aulas, assim como levantava-se antes dela para já deixar pronta meia garrafa de café quente. Estranhamente, a mudança foi acompanhada de algumas aparições da esposa do libanês na área externa. Não que antes não houvesse plantas e flores a serem regadas, ladrilhos a serem lavados, roupas para serem penduradas no varal a fim de que secassem para o marido e o filho (de trinta e nove anos, cento e quatorze quilos) usarem; mas agora, por algum motivo, aquela mulher coincidia de quando em quando com os olhos de Pluma esparramados pela janela. Todavia, não houve qualquer momento no qual pudesse divisar aquela pessoa em sua integridade, em sua completude. Tinha vaga ideia numérica de sua altura e seu peso, notou mais ou menos o comprimento e a cor do cabelo tingido, percebeu o andar manco e vagaroso, avistou pés esbranquiçados e enrugados – pouco sol, muita água. Mas nada de formato do rosto, tonalidade dos olhos, curvatura do nariz, contorno da boca. Nada do ângulo que a mandíbula fizesse na articulação com o queixo. Nenhum anel, mas será que algum brinco? Colar? Por vezes a visão erguida, por cima, afastada do objeto, apenas oculta aquilo que tencionava revelar em sua totalidade. Supostamente Pluma poderia ter feito uma descrição mais rica caso a mulher, em apresentação única, houvesse desenrolado a coluna cansada da posição de parábola mantida por tantos anos para sustentar uma dona de casa (não identificar com “dona da casa”; o libanês não perdoaria tamanho equívoco), e com isso exibido o rosto. Mas trata-se não mais do que suposição estéril, pois Pluma ocultar-se-ia em seu apartamento tão rápido quanto aquela mulher tentasse surpreendê-la.

Silêncio. Si-lên-cio. Se havia algum indício, algum sintoma de resistência naquele prédio à vida paulistana, então seu coração deixou de bombear aquelas refregas escancaradas. Por dias seguidos, Pluma posicionava-se perante a janela aguardando novas cenas. Tentava, como público bem educado, atrair a atenção dos atores, que pareciam pouco estimulados a seguir com o espetáculo: segunda-feira joga cinzas de cigarro naqueles ladrilhos, terça-feira pó de café, quarta-feira deixa cair uma tampa de panela. O cheiro de ureia tornava-se insuportável; o gato, em solidariedade, também não calculava esforços.

Silêncio. Já não tolerando mais aquele interlúdio, Pluma caminha até à porta, retorna, busca uma xícara na cozinha (naquele momento qualquer desculpa era um motivo, mesmo que démodé), alcança novamente a porta de seu apartamento. Solta a longa trava, desce o primeiro lance de escadas, depara-se com um pequeno grupo de vizinhos, estes palestrando entre si algo sobre “o casal que grita”. Um pouco embaraçada, Pluma diminui a velocidade dos passos, faz a súbita curva do andar, e acelera na descida do segundo lance. Defronta-se mais uma vez com alguns vizinhos, que se entreolham, trocam pequenos sorrisos nervosos:

– É… Eles se mataram.

Seguiram-se a esse veredicto pés descalços, pés calçados, pés enmeiados, pés que assomavam à escada do jeito que estavam. Seus proprietários (“encorajados por mim?”, pensou Pluma) percorreram num átimo os degraus que conectavam o primeiro andar ao térreo. O mero encontro daquelas pessoas foi suficiente para catalisar a ação: notando que a porta do apartamento do casal não estava trancada, um sentimento de dever fê-los adentrar o primeiro cômodo. Espremiam-se sob o batente, pois ninguém desejava a responsabilidade da invasão, como também ansiavam pela primeira visão; neste momento, um cheiro podre, infecto, de carne cujos poucos sinais de vida que restam são dos vermes que tornaram-se a própria carne, dominava qualquer espaço que ali houvesse. Porém, aquele odor reinava tão plenamente que, não sendo possível mais compará-lo a outros aromas, em pouco tempo já era indistinguível de outras possibilidades. O putrefato torna-se regular. O grupo, após atravessar poucos metros, atinge a soleira do quarto principal; a porta estava entreaberta, sendo possível enxergar apenas o recorte de uma cama com lençóis desarrumados.

Com uma leve pressão sobre a porta, retorna pouco a pouco a continuação, findo o interlúdio. Os olhos, mantendo-se firmes em sua busca, fixam-se na cama, com seu colchão, seus lençóis, travesseiros. Inquietos pela ausência de qualquer pessoa no interior do apartamento, voltam a movimentar-se. Enquanto o grupo de olhos sobem da cabeceira pela parede, o cheiro deteriorado lembra àquelas pessoas que ainda se faz presente. Elas enxergam, ocupando toda a área da parede oposta à porta, um grande espelho plano.

 

16-08-2012 (conclusão)

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Passagem (poema)

Passagem

Estou indo.
Espere-me onde o rio dobra com tanta força
que as margens sangram nossas promessas
nunca ditas

Estou a caminho.
Espere-me sob a oliveira que torce a si mesma
que nos cobriu e amou com sua sombra
e amou como a mãe que cobre o filho
e amou como o irmão que cobre o irmão
e amou com sua sombra
quando nos amávamos sem nos cobrir

Acho que estou partindo.
Amarrei uma ponta de fio da camisa numa pedra
e a saudade estica no meu andar

Mas a malha afina.
O amor trançado
desfaz-se numa saudade esguia
até aquela ponta cansar de sonhar
de segurar
de desejar

E nosso cheiro descosturar pela camisa.

Mas me espere.
Entre a humanidade e a solidão
aquela terra talvez possa
nos permitir outra vez

que amores atravessados
partidos
reconstituídos
reconciliados
realizados
aquela terra sempre germina

Gabriel Lourenço

03-05-2013

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Novo poema – 2

O que Mario não disse – Gabriel Lourenço

Não o culpe por não ter dito
não o culpe por talvez ter esquecido
que uma estratégia pode tornar-se invertida

Ainda mais profunda e mais simples
mero resultado de táticas
pensadas, esbaforidas

Pode ser que a necessidade lançada
volte-se ao lançador
Pode ser que a memória construída
tome a pele do construtor

Mas não desista dos planos, nem do objetivo
e sim, troque as peças de lugar

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Novo poema

Hellicoide – Gabriel L.

Estou o que não fiz de mim
o que aceitei como belo
o que vem natural
como o cavalo-dádiva
que metamorfoseia em troianos

Isso que sou não é soma
não se soma
se dissipa e remonta
agora com os troianos sobre cavalos

Quando estar vira ser?
Estar miúdo, mirrado, mal começado
é já ser mal terminado?
“Pois quando eras criança
precipitava-tes no adulto planejado
e este agora retorna à infância comida”

Pergunto-me se sou um troiano
se sou seu cavalo.
Respondem-me que estou
chão sendo usado, terra batida
solo de fertilidade pisada

Movo-me para que seja
enfim
o avesso – e não a mera inversão
Do que me fizeram estar

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Conto: O Sintagma

Mais abaixo, segue um conto escrito por mim. Pensei no caso que aconteceu na última quarta-feira (04/04/2012), na Grécia. Um aposentado se matou com um tiro no meio da Praça Syntagma, em frente ao Parlamento, na cidade de Atenas. Dimitris Christoulas era seu nome, tinha setenta e sete anos. Deixou um bilhete que dizia o seguinte:

“O governo de ocupação de ‘Tsolakoglou’ (*referencia ao primeiro ministro grego que durante a guerra, em 1941, colaborou com a ocupação nazista do país) aniquilou qualquer possibilidade de sobrevivência para mim, baseada em uma aposentadoria digna que paguei por minha conta sem nenhuma ajuda do Estado, durante 35 anos. Dado que minha idade avançada não me permite recorrer à força –embora se um grego empunhasse um Kaláshnikov, eu seria o segundo a fazê-lo–, não me restou qualquer outra solução para um final digno, antes que fosse obrigado a passar a buscar comida no lixo. Tenho fé que um dia os jovens sem futuro se erguerão em armas e na praça Sintagma pendurarão os traidores da nação, como os italianos fizeram com Mussolini em 1945” (Conteúdo divulgado na CARTA MAIOR)

Essa história me fez lembrar uma música do Radiohead, “Dollars&Cents”, a qual parece oportuno também compartilhar neste post:

“we are the dollars & cents
and the pounds and pence
the mark and the yen
we are going to crack your little souls
we are going to crack your little souls”
(“Dollars&Cents”/Radiohead)

Mas já falei demais, agora fiquem com o conto.

Boa leitura!

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“É pela paz que eu não quero seguir admitindo”

Volta e meia, eu sinceramente me pergunto o porquê de tantas pessoas não poderem gozar o mínimo de paz nas suas vidas. Por quê? As pessoas, todas elas, sabem o porquê. Intuitivamente o sabem. Todas elas, bem ou mal instruídas.

Mas eu insisto e, imagine-se lá o motivo, torno a perguntar: por quê? Por que essas pessoas não podem gozar o mínimo de paz nas suas vidas? É que, na indignação, o propósito de indagar sobre as causas das injustiças não é o de querer que, naquele exato momento, alguém as explique. Trata-se apenas de manifestar sua revolta por tudo o que existe. Continuar lendo

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Esclarecimento ou O Cavaleiro e Os Moinhos

Em respeito aos leitores do nosso blog (sim, eles existem!), creio sejam necessários alguns esclarecimentos.

Já faz mais de um ano que não coloco algo sério por aqui. Melhor: algo “profundo”, ou que eu, com uma pequena parcela de presunção, considere dessa maneira.

Prometi a Gabriel, ao mesmo tempo que prometi a mim mesmo, que iria desenvolver uma resposta ao texto dele E também ao despropósito das eleições presidenciais assim que encerrasse o período na faculdade. A promessa, contudo, não será cumprida.

Há muito tempo atrás, pouco mais de um ano e meio[1], cimentei o compromisso pessoal de elaborar artigos, estudar bastante, enfim, organizar melhor as ideias. Mas a verdade é que nada disso aconteceu. Continuar lendo

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