Encontros e desencontros entre a vida e o cinema

Estou postando dois textos meus sobre o programa de curtas-metragens nacionais unidos em Encontros e desencontros do amor. O primeiro é uma resenha em crise existencial, e por isso acha que é uma crônica. E o segundo é uma sinopse de cada curta; as sinopses querem colocar à prova o Sonho Pós-Moderno, tornando-se deliquentes sentimentais, e para isso disfarçaram-se de opiniões instantâneas e violentas.

O primeiro, na verdade, é produto do segundo. Repetições não serão nem coincidências nem faltas técnicas.

Sugestão: assistam aos curtas ao invés de apenas ler os textos. Podem ser encontrados no Porta Curtas; um deles acho que não está lá, mas pode ser assistido no YouTube.

Sugestão 2: não deixem de ler os textos!

Gabriel.
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Pouquíssimas vezes damos um intervalo ao que gostamos para tentar descobrir o que fez com que esses gostos nos tomassem. Por exemplo, podemos adorar o cinema – não somente o filme, mas também o filme sendo rodado em um projetor, exibido em um telão branco, sendo assistido por espectadores sentados em poltronas pretas (melhor ainda se vermelhas!), momento simultâneo a tantas pessoas em uma mesma sala -, porém sem nunca investigarmos o porquê da adoração.

Uma opção é pensar que o cinema é tão fantástico por nos levar temporariamente a mundo de fantasias, a uma realidade que não a nossa (e muitas vezes a de ninguém). Para fugir, quando crianças nos escondemos sob a cama e quando adultos nos escondemos na câmara escura onde a única luz é aquele fio que passa por sobre nossas cabeças.

Só que essa opção é tão rotineira quanto nossos gostos impensados. E toda explicação automática é como o jogador de futebol que, por todo mundo e ele mesmo terem a certeza ser um atleta experiente, para de treinar o passe básico e entra em campo sem aquecer: erra os lances essenciais e ainda termina a exibição com uma câimbra.

Remando contra a maré, convido os leitores a embarcarem dentro de um navio pirata e corajosamente andarem na prancha, até precisarem pular fora da embarcação. Seu nome é Encontros e desencontros do amor, e quem dará empurrões, se necessário, serão os curtas-metragens nacionais do programa . O que se passará? Quando pularem, sentirão aquela sensação de não pisar em nada, de incerteza; porém, também de liberdade.

Andar nessa prancha não será qualquer fuga da realidade; a cada passo, lugares-comuns sobre o amor irão ficando para trás, como que caindo de bolsos furados. Não serão histórias sobre o outro que não existe. Serão sobre nós, que amamos sempre. Mas como os mais sinceros convites são aqueles insistentes e detalhados, não posso parar aqui.

Se nos acostumamos a dizer que o amor é como uma flor, o sol, um pássaro, uma obra de arte, um “raio galopando em desafio”, vamos nos surpreender com ele desenhado como vendaval que arrasta casas e quebra copos; como sentimento que precisa ser brutalizado para renascer; como faca que corta e lembra a cor dos amantes: vermelho-sangue.

Se analisamos amor e paixão como sentimentos diferentes, nossa enciclopédia será embaralhada pelos verbetes “amor desesperado” e “paixão romântica”. Se estamos, estrada afora, no quilômetro onde o amor é sólido e certo, seremos levados ao Km 0, onde teremos as mesmas opções que Neo em A Matrix: ou tomamos a pílula azul e acreditamos que era o ponto de reencontro, ou tomamos a pílula vermelha e aceitamos que aquele foi um ponto de partida, que instantaneamente tornou-se novo destino (no lugar de quem nos espera no Rio de Janeiro, em São Paulo ou qualquer outro lugar).

Faltará para pular e refazer o inventário de nossas definições e citações poéticas que dissecam o amor inverter nossa síntese do sentimento; aí chegaremos à ponta da prancha, na fronteira com o espaço. Então, se é consenso que amor é substantivo abstrato, Amor! fecha o programa defendendo que é concreto, substantivo muito concreto; sugere que, talvez, nem as princesas deveriam acreditar em contos de fadas.

Não haverá necessidade de arrependimentos pela caminhada na prancha. A única saída do navio disponível a esta altura só será atingida pelo salto, mas ele não nos levará a um mar, com fundura desconhecida, de insegurança e pessimismo; o destino será apenas a piscina no fundo de casa. Voltaremos a nós mesmos, com diferentes profundidades e dimensões de amor para sentir. A dúvida diante da diversidade de sensações será a pólvora que ficou em nosso corpo após a passagem pelo navio pirata, queimando para que amemos sempre mais. Do jeito que quisermos.

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Pirata a pirata:

Castelos de vento (Tania Anaya, 1998)

Castelos de vento é quem dá o primeiro empurrão em direção à ponta da prancha do navio. “Destruir casas e arrastar pessoas pode ser obra do vento, ou do amor” é uma sinopse atribuída ao curta. Mas, na verdade, ele desenha o próprio amor como vento, como vendaval, imagem idolatrada no amor idealizado e temida no amor realizado.

Ansiamos por aquele amor capaz de erguer montanhas, e em breve o desprezamos pela descoberta de ser o mesmo sentimento que leva ao chão nossos copos. A diretora Tania Anaya definiu o amor de seu curta como um “amor terminal”, por estar já em meio à turbulência. Será que todo amor já não é também terminal? Amar é sempre um risco.

Buscando confundir nossos referenciais rotineiros, sugiro uma pista aí meio embrulhada, pedindo para ser desdobrada: se é o vento amor, este já existe no mundo antes de nós, e por ele somos carregados? Acertaram Lennon e McCartney ao dizerem que tudo do que precisamos é amor? Ou será que ele é algo menos insubordinado, e temos possibilidade de construí-lo e dominá-lo?

Km 0 (Marcos Guttman, 2003)

Sempre há alguém arteiro, que ameaça dar o segundo empurrão, mas apenas toca nossas costas. Lembremos que mesmo sem dar um segundo passo, há suspensão da respiração.

Penso que o diretor Marcos Guttman comportou-se aqui à semelhança de Morfeu no filme The Matrix (Andy e Larry Wachowski, 1999). Podemos tomar a pílula azul e tranquilamente felicitarmos as personagens por terem o reencontro antecipado em algumas horas.

Mas podemos tomar a pílula vermelha e nos deparar com a incerteza do amor intrometido. O km 0 pode não ser o do reencontro, mas sim o do início. O ponto a partir do qual os destinos planejados no Rio de Janeiro e em São Paulo ficaram para trás; onde a convicção de reatar esfumaçou-se como o giz-pastel sob pressão de dedos que mudaram de ideia.

Trópico das cabras (Fernando Coimbra, 2007)

Corre-se contra o tempo; a espera anestesia novamente nossos sentidos, e para que a pausa anterior seja compensada é que somos forçados a dar um grande passo de uma só vez.

Impossível não lembrar, associando enredo e título, da velha história a respeito de como os homens perdiam a virgindade no interior. Sim, e é adentrando essa atmosfera que o casal procura a resposta para a questão: há como “salvar” uma relação?

É difícil aceitar o diferente de nós mesmos. É difícil abrir-se à possibilidade de que, se nós pensamos salvar um amor que se tornou bruto, outros apostam na animalização do amor para refunda-lo.

A vida ao lado (Gustavo Galvão, 2006)

Não escrito.

A mulher do atirador de facas (Nilson Villas Boas, 1988)

Vamos percebendo que conhecer o amor é praticamente começar a amar. Pois se tínhamos nos vendado ao pé da prancha, o pano aos poucos se solta, mostrando o que ainda não conhecemos; abandonar antigas referências torna-se agregar novas. Tão paradoxal quanto o próprio sentimento.

As analogias amorosas são tantas quantas vezes as pessoas se apaixonam. Amor é como uma flor, como o sol, como uma obra de arte, como um pássaro, “como um raio galopando em desafio”… E se todo amor for terminal, bem pode ter o corte de uma faca.

Pois é, talvez intenso não seja o amor das flores, jantares e poemas; e sim aquele que corta, ameaça, cuja coloração violeta apenas esconde a violenta tentação de vermelho-sangue.

Interlúdio (Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, 1983)

Um pouco antes de darmos o passo final e atingir a fronteira entre a ponta da prancha e o salto, nada melhor que voltar ao início, ao nosso km 0.

Amamos muito, o tempo todo e até invertendo prescrições poéticas. O que já foi romantismo eterno de um lado e desespero efêmero de outro, aqui se torna “amor desesperado” e “paixão romântica”.

É por nos permitirmos esse caos sentimental que nos obrigamos a pegar aquelas temporadas sem envolvimentos, deixar o coração bater mais devagar para economizar um pouco com remédios e cardiogramas.

Contudo, até nossas pausas são apaixonadas. Talvez os Beatles acertaram, tudo de que precisamos é de amor. Nosso ponto de partida tornou-se nosso ponto de chegada.

Amor! (José Roberto Torero, 1994)

Chega o momento que, faltando 1 ou 5 passos, somos empurrados até pular da prancha.

Se muitas vezes o cinema é a fantasia, a fuga da realidade, em algumas outras ele faz a própria crítica dessa idealização. Se amor é substantivo abstrato, “Amor!” é concreto; avisa-nos que nem as princesas levariam muito a sério os contos de fadas.

Não há necessidade de arrependimentos pela caminhada na prancha. O salto que agora nos tira a certeza do chão rotineiramente pisado tem como destino não o mar, e sim a piscina do fundo de casa. Voltamos a nós mesmos com diferentes níveis de amor para escolher. A dúvida diante da diversidade de sensações será a pólvora para que amemos sempre mais. Do jeito que quisermos.

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