NOSSA PROPOSTA

“Eu sou aquele gênio que nega e que destrói!
E o faço com razão; a obra da Criação
Caminha com vagar para a destruição.
Seria bem melhor se nada fosse criado.
Por isso, tudo aquilo a que chamas pecado,
Ou também ‘destruição’, ou simplesmente o ‘mal’
Constitui meu elemento eleito e natural” (Goethe)

“As palavras mais silenciosas trazem a tempestade; pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo” (Nietzsche)

“Quis compreender, quebrando estéreis normas
A vida fenomênica das Formas
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…” (Augusto dos Anjos)

“Vosso pensamento
sonhado por cérebros amolecidos
obesos como lacaios
estirados em divãs sebosos
vou fustigar com os farrapos sangrentos de meu coração
mordaz e atrevido
até fartar-me de burla” (Maiakovski)

Evoco a palavra, chamo rosa
O moinho macio que roda
A um vento vermelho, azul que evapora
Abaixo de inferno brumoso de sombra chuvosa,
Ei-la aí, de novo névoa aquosa a palavra…rosa! (Danilo Vilela)

A palavra é nova, não adianta buscar no Google ou procurar em algum dicionário, tampouco no maravilhoso Houaiss. Panscopia resulta da reunião de dois radicais gregos, um prefixo e um sufixo – “pan” remete à ideia de “união”, “tudo à volta” e “scopia” à ideia de “ver”, ou o “ato de ver”. Panscopia seria, então, o “ato de ver tudo”.  Mas não poderia ser também a postura da mais completa investigação científica? A verdade mesmo é que a ideia da “panscopia” não é nova; é tão antiga quanto o ponto de partida de toda reflexão humana: onde estamos? Onde deveríamos estar? Onde erramos?

Os mais ardorosos defensores de um movimento permanente de crítica, tão profundo que instigasse uma crítica de si mesma pela consciência, por vezes perdem o impulso, a energia, o interesse, ou coisas que valham – a crítica, assim, se transforma no seu contrário, sendo seus elementos engessados, petrificados; exemplo palpável  podem ser encontrados em palavras como “contradição” e “processo”, ou mesmo “dialética” e “ideologia”, todas elas tornam-se, representativamente, num terno e gravata – apesar do puta desconforto, vestimos por convenção social.

E por que estamos incomodados? Ora, passados mais de 160 anos da publicação d’O Manifesto Comunista e 140 d’O Capital, a realidade continua atormentando quem a produz diariamente: homens e mulheres, de carne e osso, que atuam sobre o mundo projetando suas próprias subjetividades, que parecem voltar-se contra essa mesma humanidade, ou contra o que a humanidade deveria ser.

Apesar das diversas formas nas quais se expressa a inversão do ato de humanizar, o desumanizar, para nós é claro que o núcleo ainda encontra-se na cisão, no fosso, do modo atual de produção e reprodução da vida material e social. Reconhecemos os significantes, os estímulos sensíveis, que certos fenômenos ou pensamentos, vão significar como “irracionais”, “fora da luta de classes”, “essência humana” e coisas afins. Todavia, para nós são formas, aparências mais ou menos estético-expressionistas, apresentando-se  de maneira exageradas e distorcidas, ou, diremos, violentas e desagradáveis ao primeiro olhar, mas sempre de gênese comum. Aliás, há quem prefira chamar essas aparências de “líquidas”, mas talvez isso não seja apenas questão de gosto.

Assim, violências, sadismos e masoquismos, corrupção, “imoralidades”, etc, não são senão produtos históricos, determinados, das relações fundamentais de uma sociedade. Não nos deteremos justificando quais são essas relações, mas adiantaremos que são determinadas no sentido de que nelas existem muitas determinações, muitos fatores, elementos que determinam que algo se apresente ou apareça como algo, isto é, esses produtos históricos são multideterminados pelas relações que fundam a sociedade – e, preparem-se, qualquer sociedade; a produção econômica como apropriação da natureza pelo homem não deixará de existir numa formação societária pós-capitalista. Não está, contudo, entre os objetivos da apresentação de nossa proposta se estender para além desses e outros apontamentos. Mas  deve-se lembrar que até entre os animais, que têm na convivência coletiva uma necessidade vital, sendo uma formação social consequência obrigatória, a produção e reprodução da vida se faz presente como preocupação perene.

Grosso modo, através de simples operação matemática – uma realidade que não mudou + pessoas que fingem tentar mudar a realidade – é que se decidiu pela criação de Panscopia, instrumento para instrumentalizar. Não é uma tautologia para velar uma forma oca: criticamos a atuação acadêmica/intelectual não-militante. Propõe-se, então, construir um veículo que possibilite uma rearticulação dos interesses históricos da classe trabalhadora e das ferramentas necessárias para a realização deles. Contudo, sem tropeçar em imediatismos, ou em desesperos embutidos na espera de que as transformações sociais e a superação do capital ocorrerão de um dia para o outro, trata-se de voltar à tarefa de compreender a sociedade, muito determinada, com o rigor teórico e científico que ela exige: “Ciência e paciência, certa é a tortura” (Rimbaud, em Uma estadia no inferno). Ou então, como explica mais detalhadamente Florestan Fernandes:

O debate terminológico não nos interessa por si mesmo. É que o uso das palavras traduz relações de poder e relações de dominação. […] Se a massa dos trabalhadores quiser desempenhar tarefas práticas específicas e criadoras, ela tem de se apossar primeiro de certas palavras-chave (que não podem ser compartilhadas com outras classes, que não estão empenhadas ou que não podem realizar aquelas tarefas sem se destruírem ou sem se prejudicarem irremediavelmente)” (O que é revolução).

Nossa preocupação terminólogica acompanha, assim, à atenção metodológica, estendendo-se à reprodução ou produção de saber no seu plano sintagmático e na sua investigação paradigmática*. As palavras soltas são as palavras pálidas que já nascem mortas;  certamente não é esse nosso propósito.

O nosso boletim, inicialmente na sua versão online, abrigará textos, artigos, poemas, contos e crônicas. Os textos e artigos se dividirão em diferentes colunas: “Opinião”, que estará armazenada na seção “Política” do blog; as seções “Crítica” e “Fundante” se destinarão ao armazenamento de resenhas nossas, críticas de obras e reflexões sobre economia política, respectivamente. Por sua vez, a seção “Artetude” é o nosso espaço literário, como se poderia imaginar.

Contribua você também para o Panscopia e visite o nosso blog!

Danilo Vilela mora em Aracaju/SE e é estudante de Direito da Universidade Federal de Sergipe e de Letras-Português da Universidade Tiradentes

Gabriel Lourenço mora em São Paulo/SP e é estudante de Ciências Sociais da USP

*Sintagmático/Paradigmático: para a Linguística, mais especificamente a partir dos estudos de Ferdnand Saussure, cada palavra representaria na sua própria forma um significante, reunindo em torno de si elementos, chamados significados. O significante é qualquer palavra que remeta a uma representação lógica, ou a alguma imagem logicamente relacionada(diz-se “imagem acústica”, não por haver qualquer referência à fonética, mas é como se apenas pela pronúncia da palavra fosse possível traduzir no cérebro do ouvinte o seu “eco”, um “eco” que apareceria na forma de imagem); por assim dizer, uma representação lógico-imagética – “árvore”, ao se dizer, remete a “verde”, “folhagem”, “brumagem”, “tronco”, “galho” – essa relação na linguagem prosaico-cotidiana se desenvolve normalmente, seguindo essa cadeia. O contrário se opera na linguagem literária e poética, na qual ocorre uma “turbulência” na relação entre significante e significado – aí, por exemplo, pode-se admitir algo como “que o sol esfrie a alma rochosa”, donde é lógico admitir que é impossível o sol “esfriar” algo ou mesmo alguém, ou mesmo uma alma, de cuja existência nem sabemos…e donde igualmente é lógico reconhecer que alma, na sua efemeridade abstrata, não pode ser entendida como algo que remeta à ideia de “rochoso”, “petrificado”, “concreto”.

Por sua vez, grossíssimo modo, o sintagma constitui, entre outras coisas, a sentença de significantes, de palavras, que podem tanto afirmar como negar algo.  Pode haver sintagma que não seja uma frase, uma sentença? Sim, pode. Qualquer palavra, ao combinar códigos de linguagem, está formando sintagmas: “bola”, por exemplo, é um sintagma. No caso do sintagma considerado como sentença de significantes, estamos nos referindo ao sintagma existente quando os significantes(que são também sintagmas) são relacionados entre si, criando o que se chama de “relações sintagmáticas”. Nesse sentido, se tomarmos como exemplo a frase: “O menino leu o livro”, teremos sua divisão entre um sintagma nominal (O menino) e um sintagma verbal (leu o livro), e nada mais, pois essa análise se debruça ao que está diretamente dito. Porém,  quando a partir dessa frase desenvolvemos outras que lhe são correspondentes, estamos detectando outras relações sintagmáticas possíveis; temos, então, relações paradigmáticas “escondidas” no discurso: “O menino terminou de ler o livro”, “A leitura do livro foi concluída pelo menino”, “O menino terminou a leitura do livro”, ou mesmo “Não foi aquele menino que terminou de ler o livro”, ou “A leitura daquele livro não foi concluída pelo menino, mas a deste” etc., até  articulações mais complexas. Reflexões desse tipo, representadas “dentro” do sintagma, são reflexões paradigmáticas, ou também chamadas relações paradigmáticas. Rapidamente, assim, ao se tratar de relações paradigmáticas, diz-se que há mais elementos para além das relações do sintagma: uma sentença afirmativa é ao mesmo tempo negativa de algo ou afirmativa de uma outra coisa.

Uma resposta para “NOSSA PROPOSTA

  1. Achei a concepção muito boa! desde então passei a acompanha-los e tomei a ousadia de divulgar o “Panscopia” em um blog ( http://www.atituderesistencia.blogspot.com ).
    Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s