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A passagem: vinte centavos ou efeito dominó?

Um senso comum antigo, enraizado e bem difundido é de que o perfil do brasileiro – quer dizer, a grosso modo, sem entrar nos perfis por classes sociais – é altamente conciliatório. Por aqui, a palavra “diálogo” arrasta consigo mais do que aqueles valores democráticos, mais do que aquela imagem estúpida de uma mesa de negociação que oculta a dominação efetiva .

Carrega sentimentos bem concretos de evitar conflitos; de não se ter que vivenciar a experiência de escutar palavras de ordem; de não se correr o risco da frágil rotina diária se quebrar e fazerem-se necessários ajustamentos de vidas tão apertadas.

No Brasil, a defesa popular do “diálogo” carrega sentimentos bem concretos de medo. A família e a escola nos ensinam, desde muito novos, que “violência gera violência”. Ensinam mesmo? Repetem como mantra, reza, hipnose, fórmula; mas nunca justificaram. Nunca nos disseram o que é exatamente violência, se existe mais de um tipo, e por que raios coisas tão diferentes (assim, por exemplo, um sequestro seguido de tortura e morte, e uma manifestação que bloqueia o tráfego de automóveis, o que tem sido dito também como violento) poderiam uma produzir a outra.

“Diálogo”, por aqui, tornou-se um dever. Não é mais uma possibilidade de se tomar decisões políticas, não é um método, não é um meio. Diálogo, aqui, não é bonito. É inculcado como obrigação oposta à manifestação na rua, no espaço público, que faz as pessoas olharem-se, ouvirem-se. A reunião, o momento no qual o indivíduo torna-se grupo, tem cheiro, tem cor, tem dor, tem passado e deseja ter futuro. Protestar cria, por tênue que seja, laços de solidariedade e confiança. Tem-se a expectativa de que as pessoas ao seu lado não vão simplesmente te abandonar em situações tensas. Reunir-se é semente de responsabilidade.

Não à toa, a defesa governamental do “diálogo” carrega, ao contrário da defesa popular, não o medo, mas o autoritarismo. A vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão (PCdoB), disse, em relação ao ato do dia 11 de junho:

Eles não iniciaram nenhum tipo de diálogo, começaram com as manifestações. O objetivo parece querer criar um fato na cidade, complicar a vida da cidade. Fazer paralisações para dar destaque a uma reivindicação, uma bandeira. Esse não é o melhor caminho, pelo contrário” (http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/nessas-condicoes-dialogo-nao-e-possivel-diz-vice-de-haddad,42e708224183f310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html)

Assim como o próprio prefeito, Fernando Haddad (PT):

Eu disse e repito que não vou dialogar em uma situação de violência, falei várias vezes. A renuncia à violência é pressuposto ao diálogo. A prefeitura dialoga com todos os movimentos sociais, não tem preconceito” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/nao-vou-dialogar-em-situacao-de-violencia-diz-haddad-apos-protesto.html)

Colocar o diálogo como oposto à manifestação é a forma mais rotineira de um governo, ao mesmo tempo, deslegitimar um movimento social e não sentir-se pressionado a recuar em decisões. As mesas de negociação, sem pressão organizada, servem como propaganda política; governos usam disso para justificar decisões. É ingenuidade tomar como pressuposto de que os governos municipal e estadual de São Paulo desconheciam a insatisfação provocada por aumento das passagens do transporte público, de que desconhecem as pautas.

É pouco? Pois bem. Para quem acompanhou a última campanha eleitoral municipal, sabe que houve muita polêmica em torno da candidatura Haddad, apoiar ou não, etc. No final do ano passado, ou início deste ano, quando tornou-se público que haveria um aumento da passagem neste primeiro semestre, defensores, “críticos” ou não, de Haddad, argumentaram, seguidos pelo mesmo, de que a decisão foi tomada durante o exercício de Gilberto Kassab, dado que o orçamento público é decidido no ano anterior. Estranhamente, durante os atos, nos deparamos com a seguinte afirmação:

“Haddad também lembrou que o reajuste do valor da passagem de ônibus ficou abaixo do preço esperado. “Nós fizemos um esforço orçamentário, a prefeitura de São Paulo, também acompanhados pelo governo do estado, conseguimos junto ao governo federal uma desoneração de tributos, o que permitiu um reajuste bem abaixo da inflação. Um reajuste em 2 anos e meio da ordem de 6% contra uma inflação acumulada de mais de 15%. Eu estou cumprindo com aquilo que eu prometi há menos de um ano, entendo que esse é o caminho para melhorar a qualidade do transporte público.”” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/nao-vou-dialogar-em-situacao-de-violencia-diz-haddad-apos-protesto.html)

Calma lá, prefeito. Se “democracia é assumir responsabilidade”, como você mesmo disse, então assuma as suas. Afinal de contas, você e seu governo puderam ou não exercer decisões sobre o preço da passagem?

É pouco? Pois bem. Se “a renúncia à violência é o pressuposto ao diálogo”, você há de convir, prefeito, de que a possibilidade de mudar de posição também deve ser pressuposto ao diálogo. Senão, dialogar para quê? Não queremos tomar café contigo. Mas você disse:

““Havíamos nos comprometido a dar um reajuste muito abaixo da inflação. Se fosse dada a inflação, o valor da tarifa seria muito maior do que foi dado no momento. Então, o valor será mantido porque já está muito abaixo da inflação acumulada”, disse o prefeito, em entrevista à imprensa.” (http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2013/06/13/interna_brasil,371330/haddad-valor-da-tarifas-de-onibus-de-sp-sera-mantido-apesar-dos-protestos.shtml)

Estamos curiosos, senhor prefeito, para saber sobre o que você queria dialogar então. Será que se planejava para reproduzir seu programa de governo, como fez seu partido (http://www.pt.org.br/noticias/view/sp_executiva_municipal_do_pt_divulga_nota_sobre_manifestacoes_contra_o_aume)? Pra isso, ficamos com o professor Lincoln Secco:

“A Direção do PT aprendeu a fazer aquilo que criticava: movimentos sociais só servem como correias de transmissão da política eleitoral do partido. Se não são “centralizados” (como diz o prefeito), dirigidos ou tutelados eles de nada servem. São uma quadrilha. Que saudades do PT quando ele era aquela quadrilha…” (http://www.viomundo.com.br/politica/lincoln-secco-que-saudades-do-pt-quando-ele-era-aquela-quadrilha.html)

Este seu samba, prefeito, é de muito mal gosto, diga-se de passagem*.

A família e a escola também nos “ensinam” outras coisas. Coisas que os locais de trabalho, as faculdades, os jornais, os canais de televisão e de rádio também se esforçam muito para que internalizemos e passemos adiante. Uma dessas é a inflação: devemos sempre nos lembrar, quando acharmos que o salário é pouco e as coisas que precisamos são caras, que os governantes e empresários não podem fazer muita coisa porque existe inflação. Certo, Haddad?

Não vai ter uma linha neste texto sobre o que é inflação, o que não é, o quanto foi. E não precisa. Por que precisamos nos calar diante do argumento da inflação, se o modelo do transporte público é de uma concessão à iniciativa privada, que lucra (LUCRA) a partir de um serviço essencial, recebendo subsídios públicos?! O Estado dá dinheiro para as empresas lucrarem e quem governa quer restringir a discussão nos termos da inflação!

É como estar num labirinto e sempre dar com a cara numa parede. E é por ser irracional que faz sentido não ser o prefeito, não ser o governador, não ser qualquer governante que vai na rua encontrar o movimento social, mas sim a Polícia Militar. As instituições militares são, por excelência, avessas à argumentação. É necessário manter a hierarquia interna, as posições de mando e obediência. Não faz sentido argumentar internamente. É um risco à corporação militar argumentar externamente.

É por isso que não faz sentido tratar ações da Polícia Militar em termos de “excessos”, “desmandos”, “desvio de conduta”; sua razão de ser é a ostensividade. No último ato em São Paulo supostamente a repressão policial teve início por tentativa de impedir os manifestantes bloquearem a Avenida Paulista. O resultado foi a Avenida Paulista bloqueada pela repressão policial. Não importava manter o tráfego; importava o cartão-postal da cidade não aparecer ocupado por manifestantes na véspera da Copa do Mundo, a ser sediada no país. Importa a imagem de segurança, mesmo que sejam tratados como risco à segurança manifestantes, jornalistas, transeuntes. A segurança da cidade é a não segurança de seus moradores.

Não faz sentido porque os policiais são treinados para o excesso. Se o estado de exceção é a norma, o excesso é o pleno exercício da força. O sadismo (em termos bem grosseiros), como prazer próprio na dor alheia, é a identidade do corpo policial em ação:

Todos os jornais que circularam essa foto escreveram que o casal da imagem não estava participando do ato.

São vários os vídeos que circulam registrando ameaças de policiais às pessoas que filmavam e fotografavam os atos. A foto é um exemplo, singular pelo rosto descoberto do policial que agride.

É pouco? Pois bem. Uma das pérolas que surgiram após o último ato foi uma reportagem do G1 com entrevistas de ex-PMs sobre a ação policial. Um deles diz:

“O mesmo entendimento é do ex-major da PM, Diogenes Viegas Talli Lucca. “A PM usou o recurso adequado para aquela ocasião. A única falha da polícia foi a de não ter entrado com força máxima na terça-feira [durante o terceiro protesto organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) na capital]. Se tivesse usado a Tropa de Choque na terça, a manifestação teria diminuído na quinta”.” (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/estrategia-da-pm-na-consolacao-foi-correta-dizem-especialistas.html)

De novo, não importa manter o tráfego nas vias onde ocorrem os protestos. Importa forçar a diminuição dos protestos, importa deslegitimá-los. Importa o excesso para que ocorra… O não protesto. Se manter o tráfego normal fosse interesse dos governos, veríamos a notícia abaixo?

“São Paulo registrou, às 19h30 desta quarta-feira (12), o maior congestionamento do ano. Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), no horário, a cidade tinha 282 km de lentidão. O índice é o terceiro maior já registrado na história da medição da companhia.” (http://noticias.r7.com/transito/noticias/sp-bate-recorde-de-transito-do-ano-com-282-km-de-congestionamento-20130612.html)

Importante: no dia 12 de junho não houve qualquer manifestação contra o aumento da passagem.

O resultado até agora é mais atos programados. Chega a ser mais pitoresca do que histórica a situação: a repressão policial como resposta do Estado, que não se importa em deixar clara sua postura de defender os interesses de quem lucra com os serviços essenciais da população, dá consistência ao movimento social.

Tenho pensado, de uns dois anos para cá, que no Brasil – e imagino que não só aqui – há um contraste entre duas formas de associação, contraste oculto por uma síntese de ambas. Tem-se a impressão de que, diferente do que já foi, as pessoas não se organizam mais para reivindicar, sejam demandas específicas, sejam reivindicações de classe. De que vivemos um ápice de individualismo, de cisão dos laços sociais, de estreitamento do tempo disponível para a ação política. Contudo, há muito associativismo no Brasil: torcidas organizadas, empresas juniores em faculdades, escolas de samba, grupos de igrejas, grupos de trabalhos voluntários, além, é claro, de partidos, centros acadêmicos, grêmios, etc.

Acho que não só nós temos medo. Quem manda e quem lucra também têm medo. Medo de se reconstituírem as identidades que, num esteio de pólvora, fazem o barril da história explodir.

Gabriel Gomes Lourenço

* Essa passagem foi gratuita.

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A comparação é boa, a conclusão é ruim

No Fórum Econômico Mundial, em Davos, o Professor Muhammad Yunus fez uma comparação bastante interessante. Disse que o capitalismo assemelhava-se a um carro quebrado. Se o capitalismo, então, está quebrado, ele deveria ser substituído por um novo sistema, que, por sua vez, também poderia ser representado na figura de um novo modelo de carro.

No texto que acompanha esta postagem, em inglês, aponto um problema lógico nessa comparação do professor Yunus. Fiz uma versão em inglês porque ele se destina ao público internacional como um todo. E também para praticar meu domínio com o idioma. Continuar lendo

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Comentários: a DRU, o Governo Dilma e o Neoliberalismo

Com o texto que acompanha esta postagem, volto às minhas atividades no blog.

Não se trata de um artigo propriamente dito. Apenas consiste  num texto organizado em breves comentários, cada um dos quais iniciados por um título.

Nele tento organizar algumas ideias, apenas. Tem, contudo, a validade de expressar, de um modo geral, minha opinião sobre o governo Dilma.

Abraços e um Feliz 2012 a todos/as. Continuar lendo

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Sobre ciência e prática

Em recente discussão, comentei acerca do pragmatismo/ativismo gigantesco no qual os militantes se meteram de corpo e alma, e que leva a, principalmente (mas não apenas), confusões entre aparência e essência, como se a realidade se desse ao conhecimento de forma imediata. Ou seja, bastaria a empiria para se saber em que pé estamos e pra onde vamos. A realidade, tanto natural quanto social, dariam-se imediatamente ao conhecimento; sua inteligibilidade prescindiria de qualquer mediação.

Se assim fosse, o estudo, a investigação, as análises, as sínteses, seriam momentos desnecessários da atividade humana.  É a velha questão de Marx: se aparência e essência coincidissem, não seria necessária nenhuma ciência.

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