Conto: O Sintagma

Mais abaixo, segue um conto escrito por mim. Pensei no caso que aconteceu na última quarta-feira (04/04/2012), na Grécia. Um aposentado se matou com um tiro no meio da Praça Syntagma, em frente ao Parlamento, na cidade de Atenas. Dimitris Christoulas era seu nome, tinha setenta e sete anos. Deixou um bilhete que dizia o seguinte:

“O governo de ocupação de ‘Tsolakoglou’ (*referencia ao primeiro ministro grego que durante a guerra, em 1941, colaborou com a ocupação nazista do país) aniquilou qualquer possibilidade de sobrevivência para mim, baseada em uma aposentadoria digna que paguei por minha conta sem nenhuma ajuda do Estado, durante 35 anos. Dado que minha idade avançada não me permite recorrer à força –embora se um grego empunhasse um Kaláshnikov, eu seria o segundo a fazê-lo–, não me restou qualquer outra solução para um final digno, antes que fosse obrigado a passar a buscar comida no lixo. Tenho fé que um dia os jovens sem futuro se erguerão em armas e na praça Sintagma pendurarão os traidores da nação, como os italianos fizeram com Mussolini em 1945” (Conteúdo divulgado na CARTA MAIOR)

Essa história me fez lembrar uma música do Radiohead, “Dollars&Cents”, a qual parece oportuno também compartilhar neste post:

“we are the dollars & cents
and the pounds and pence
the mark and the yen
we are going to crack your little souls
we are going to crack your little souls”
(“Dollars&Cents”/Radiohead)

Mas já falei demais, agora fiquem com o conto.

Boa leitura!

O SINTAGMA

O pai deu ao filho uma nota de cem reais. Papai sempre foi pão-duro, um mão-de-vaca do caralho. Por que aquilo? O filho tinha razão. De fato, não havia lógica alguma naquele gesto.

O pai tinha acabado de ler seu jornal. Ou achou que já tivesse lido o suficiente. Passou a página do editorial, que falava sobre os avanços da política macroeconômica de juros altos. Leu artigos, aqueles colunistas de sempre criticando alguém ou alguma coisa do governo ou todo o governo – ou criticando tudo, como velhos em mesa de bar.

Por alguns minutos, porém, o Sr. Severo teve sua atenção estacionada numa manchete que dizia “Por crise, aposentado grego se suicida na frente do Parlamento”. Tempos de merda, já não nos matamos por amores, pensou. Terminou de ler a matéria e descansou o jornal sobre a mesa. Ali, aberto.

O filho jogava videogame nesse momento. Teve certeza de que ouvira um som parecido com o de um soluço. Só podia ser seu pai. Moravam apenas ele e o filho naquele apartamento espaçoso. Beba água que passa logo, pai, disse o filho, atento às imagens confusas, velozes e caóticas que iam de um lado pra outro na tevê.

Está tudo bem, filho.

O Sr. Severo era triste, mas não gostava de compartilhar sua tristeza. Ex-militante de esquerda, desiludiu-se com as brigas internas dos partidos e pôs-se a debruçar sobre os estudos. Formou-se em Direito, advogou por alguns anos e passou num concurso para juiz. Pronto, cheguei onde queria, era como pensava. Casou-se, teve um filho, mas dois anos depois foi traído. A mulher veio a morrer num acidente de carro. O amante dirigia muito rápido. Aquele imbecil.

Criou o filho sozinho. Cândido contava dezesseis anos. Mero aluno regular. Tinha uma capacidade impressionante de não se concentrar em nada do que fazia. Só o videogame. Deve ser hiperativo, disse certa vez uma psicóloga, conhecida do pai, que andava preocupado.

Mas o pai gostava da companhia do filho. Sabia que havia tempo pra tudo. Uma dia ele ia aprender, era o que imaginava. Sr. Severo e sua vocação para ser alma resignada. Por vezes, sentia-se fraco, sem ânimo. Mas era desses que insistia em se esconder na mesma medida em que escondia sua fraqueza. Às vezes – e no máximo – caminhava com lentidão.

Com passos lentos, o pai caminhou até o quarto do filho. Parou na porta. Olhou tudo. O edredom cobrindo a cama. Travesseiro de nasa. Alguns bonecos que o filho ainda mantinha nas suas estantes. Mesa de estudo, papéis de um lado, lápis e borracha de outro, livros espalhados pra lá e pra cá. Computador. A televisão e o videogame ao lado. E uma cortina estampada com figuras de heróis americanos.

Homem-Aranha, né?

Hã? O filho deu uma pausa no jogo.

Homem-Aranha. Me lembro dele. Gostava muito quando tinha sua idade. Passava um seriado.

Ah, sim, é, disse o filho, reticente. Homem-Aranha, mesmo, pai, disse como se aquilo não lhe fizesse diferença alguma. E voltou-se ao videogame.

O pai aproximou-se, o garoto nem notou. Mexeu no bolso, tirou uma nota de cem reais e estendeu-a, na frente do menino, causando-lhe súbito espanto.

O garoto deu outra pausa no jogo. Pai, mas que raios?…

O nome disso é dinheiro, filho.

Sim, né, eu sei que é dinheiro, pô!…Mas pra quê isso? E…por que agora?

O nome disso é dinheiro, filho.

 Danilo Vilela*

*Estudante de Direito da Universidade Federal de Sergipe

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