bate mais, bate

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bate mais, bate

– Você está louco seria a mesma coisa que tomar chá mate com extrato de maracujá fumar um cigarro e assistir aquele programa de lagartixas do deserto que levantam as patas alternadas devido ao calor que passa a cada 2 semanas na TV Cultura! Isso não existe vaiàmerda!

– Cara, entendo sua indignação. Mas porra aconteceu, e com todos os detalhes que te contei! Você queria ter chegado antes eu sei, mas como demorou um pouco pra voltar eu não podia deixar esperando, né? Pô, pensa nos detalhes no calor da coisa ao invés de perder tempo puto comigo.

Não era sempre assim às segundafeiras. Sim, admito que o dia escolhido foi aquele que ninguém escolhe, já que as pessoas precisam trabalharparaviver, dormirparatrabalhar, terfilhosparanãodormir, treparpara-talvez-terfilhos, casarparaseparar, trabalharparabeber. É por isso que as pessoas adequadas ao próprio tempo bebem e discutem aos sábados; não às segundafeiras.

Mas o dia da semana em questão, para eles, era normal. As discussões entre Anodil e Lebriga também, inclusive com os xingamentos da melhor espécie (talvez não por ambos). Mas juntando todos os detalhes das diferenças posso afirmar-lhes certamente que aquela noite era incomum: a velocidade com que Anodil cuspia as frases, a quantidade de palavrões soltos por Lebriga acima da rotineira, o uso de garfo por eles para comerem as mandiocas fritas. E principalmente a mesa escolhida não era aquela próxima ao balcão e à entrada, deslocada de forma a que a corrente de ar passa direto, de onde se pode avistar as moças que vão tirar doce-de-leite do rocambole, colocar a carga de tinta no tubo da Bic, desentupir o fogão, etc.

Não. Era uma mesa colada ao banheiro masculino, numa posição que a cada inda ou vinda da porta saía uma golfada de ar semelhante àquelas que sentimos quando estamos nas poltronas 38, 40 ou 44. Houvesse uns velhotes reclamando sem parar, algumas mesas à frente,  e poderíamos dizer que eles estariam fazendo uma viagem intermunicipal pela Rapidinha, provavelmente por uma estrada alternativa. Justifico isso como sinal de problema porque, apesar da breguice nas metáforas sexuais e prostituídas, eles têm bom gosto; e pra terem bom gosto, treinam os sentidos rigorosamente. Imaginem um nariz de cão sentindo o cheiro do banheiro do Cão.

– COMO ASSIM?? Eu não estava lá para ver o movimento o ir e o dar pra trás de sentir isso em todos os ângulos e posições possíveis e você SEU FILHO DA PUTA me diz para ficar imaginando?? Você tá de brincadeira comigo! Me diz sério você deve ter algum masoquismo escondido que nunca me contou sei lá você deve gostar de colocar MUITO mel na parte de trás da perna na altura do joelho dobrá-la esperar secar pra doer muito na hora de descolar  só pra simular uma cãimbra!

– Ein? Sei, sei. Você está gravemente ofendido e vai tentar me atacar agora revelando impulsos seus, e…

– VAI À PUTA QUE O PARIU!

– Relaxa cara. Acho que devemos conversar mais sobre alguns momentos. Por exemplo, a chegada já foi de arrepiar a nuca, “Vocês só agitam, não têm coragem de fazer o que ficam falando”.

– Vocês? Bixo, tinha mais gente?!

– Claro, afinal tinha que ser em grupo, porque quando um cansa o outro já entra com tudo, e aí quem saiu toma uma água, lubrifica e hidrata, e volta pro centro da sala.

– Não entendi, vocês não estavam em uma mesa?

– Não, não, ficamos todos de pé. Tiravam prazer do nosso desconforto com a posição, e ao mesmo tempo não paravam de falar. Rolou uma espécie de sadismo, acho até que minha capacidade de concentração passou a ter sério transtorno de cisão de personalidade. Só uma concentração esquizofrênica para aguentar a pressão.

Viola era o garçom que semanalmente levava os choppes e as porções para Anodil e Lebriga. Aliás, ele sempre pedia aos outros garçons que o deixassem com aquela mesa; os companheiros, assustadíssimos, aceitavam de bom grado o pedido. Viola nem desconfiava que eles tinham sérias preocupações com sua saúde mental.

– João, o Viola surtou de vez. Aquele negão é gente boa, mas daqui a pouco vai vir falar que no São Paulo não tem bambi, comentou de lado Paulinho, enchendo os copos de chopp.

– Opa! Como assim Paulinho?

– Porra, da última vez ele veio com aquele papo de que na gema do ovo já existe o pinto. Agora ele veio todo afobado, dizendo que o pau tá quebrando na mesa dos dois retardados por causa de uma negociação entre os peões de uma fábrica, os patrões deles e um sujeito da prefeitura. Parece que alguém batia em alguém, com outro assoprando, algo assim.

– E qual o problema?

– Orra João, não é possível que suruba tenha alguma coisa a ver com sindicalismo, negociação e governo! Ou é?

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bate mais, bate de Gabriel G. Lourenço é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.

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