aquele sonho

“Itaú. Feito para você sonhar.”

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aquele sonho

Hadassah era um tipo de mulher que deveria ser chamada de humanitária. Guardava em 1,71m o que ela definia como a distância entre a eterna selvageria da natureza e o pacote de sementes da solidariedade. Era uma forma poética de falar a respeito da própria altura, dizendo que o mundo é rude, mas um futuro melhor é possível se sonhado.

Era sempre um fracasso, e algo humilhante, o que sobrava das tentativas de alfinetá-la afirmando que, com uma distância relativamente tão grande, certamente não participaria desse um futuro melhor; além de humanitária, era inteligente:

– Quanto maior a distância menor a possibilidade de contaminação. E por isso, maiores as chances de não termos pelo que lutar ou que morrer, apenas vivermos em paz.

Sem dúvidas, era muito inteligente. Humanitária. E muito alta.

De 1 a 5 vezes por semana fazia visitas e generosas doações a abrigos assistenciais. A quantidade era flexível porque estava mais ou menos limitada pelas palestras de educação ambiental e reciclagem agendadas que dava, pelas idas à sinagoga e à sessão regular da Câmara dos Vereadores, pela atenção aos filhos (amava aquele casal de gêmeos), pela ajuda prestada a moradores de rua para encontrarem empregos, atividades concentradas entre segunda e sexta-feira. Às vezes ainda participava de passeatas contra o uso de peles de animais em vestuários, e do uso dos bichinhos como cobaias pela ciência. Sábado era intocável. Domingo não aguentava tocar nada. E foi neste dia que o telefone tocou:

– Sra. Hassadah?

– Sim, sou eu.

– Boa tarde, meu nome é Andrea Mer e estou ligando em nome do Banco Imagine. Estamos produzindo uma campanha para fortalecer a relação entre nossa instituição e os clientes, mostrando que aqui é o lugar ideal de todo mundo que sonha, mas sente-se incompreendido.

– Nossa! Isso é muito bonito, e acho que realmente precisamos de mais pessoalidade nesses tempos. E por qual motivo entraram em contato comigo?

– A trilha sonora de nossa campanha é marcada por uma letra maravilhosa, que inclui frases como “Imagine não existir posses”. É sua filosofia, não?

– Sim, claro!

– Pois então: gostaríamos de convidá-la a participar da gravação do vídeo da campanha, junto a outros sonhadores como a senhora.

Na quarta-feira seguinte estava Hassadah, com seu melhor brilho, dirigindo para o endereço do edifício onde seria feita a gravação. Quanto mais aproximava-se do local mais notava uma intensificação do trânsito, uma diminuição da velocidade dos carros, e um aumento das buzinas. Conseguiu visualizar, metros à frente, multidão, bandeiras, apitos e faixas: “Aumento salarial já! Que nos paguem como qualquer mercadoria: queremos o que valemos!”:

– Não acredito… Isto só pode ser uma brincadeira…, pensou (antes de gritar a mesma coisa) Hassadah.

Ela conseguiu chegar ao prédio percorrendo um caminho maior do que teoricamente era necessário. Enquanto engatava a marcha-ré e girava o volante para a baliza, percebeu que dois manifestantes gritavam-lhe palavras e faziam-lhe gestos, ambos incompreensíveis, pela distância e pela posição:

– O que esses desocupados querem?! Tenho certeza que sabiam da gravação e vieram, no mínimo, interferir em nossa gravação.

Determinada a superar qualquer obstáculo que se colocasse entre ela e o sonho de um mundo melhor, ignorou os grunhidos e rangeres de dentes, engatou a marcha-ré, girou o volante, preparou-se para a baliza, e fez o movimento de um golpe só. Devido à pressa, ao sair do carro não buscou o motivo do barulho e solavanco produzidos na roda traseira direita, quando fez a baliza.

Após 2hr e 13 minutos, voltou à rua, e rapidamente tomou rumo oposto ao local onde estacionara o carro: havia ainda um punhado de manifestantes, agora membros de um grupo que reunia ainda policiais, médicos e curiosos, próximos ao seu veículo. Querendo evitar problemas e aparições desnecessárias na mídia (a participação na campanha fazia parte do sonho de união das pessoas, sem inferno sob elas, apenas com o céu sobre as cabeças), buscou um espresso na outra esquina.

Dois policiais acabavam de tirar o macaco que suspendia a roda traseira direita do carro de Hassadah. Um médico embrulhava o corpo do menino, de uns 8 anos, esmagado quase completamente, enquanto outro plastificava parte do joelho que não foi forte o suficiente e descolou-se do conjunto. Dois manifestantes davam o testemunho do ocorrido, incluindo que tentaram avisar aquela madame de classe média, de feições estúpidas e que trajava uma camiseta com a estampa de John Lennon.

Creative Commons License
aquele sonho de Gabriel Lourenço é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.

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