Sobre ciência e prática

Em recente discussão, comentei acerca do pragmatismo/ativismo gigantesco no qual os militantes se meteram de corpo e alma, e que leva a, principalmente (mas não apenas), confusões entre aparência e essência, como se a realidade se desse ao conhecimento de forma imediata. Ou seja, bastaria a empiria para se saber em que pé estamos e pra onde vamos. A realidade, tanto natural quanto social, dariam-se imediatamente ao conhecimento; sua inteligibilidade prescindiria de qualquer mediação.

Se assim fosse, o estudo, a investigação, as análises, as sínteses, seriam momentos desnecessários da atividade humana.  É a velha questão de Marx: se aparência e essência coincidissem, não seria necessária nenhuma ciência.

Mas há ainda uma outra dimensão da relação teoria e prática, tão frequentemente levantada quanto à anterior. Citando o caso concreto para ser sucinto, fiz a seguinte afirmação:

“Socialismo só é possível com revolução, e revolução é ruptura. Um Estado dos trabalhadores não é sinônimo simplesmente de ‘Estado governado por pessoas de origem trabalhadora’; isso é condição necessária, mas insuficiente. Uma revolução socialista deve derrubar o Estado burguês; um Estado socialista, além de ser dos trabalhadores para os trabalhadores, deve ser de transição. É construído projetando-se já sua destruição. Em vista disso, é necessário um Estado com forma e conteúdo totalmente diferente.”

Recebi como resposta à minha afirmação “que devemos fazer uma análise que parta mais do momento histórico que passamos do que de um modelo teórico ideal“.

Há uma diferença muito grande entre o que eu falei, e o que seria um “modelo teórico ideal”. A idealização, grosseiramente falando, seria explicar a realidade pelo que as pessoas pensam, incluindo aí a normatização. Deste ponto de vista, minha posição seria então uma espécie de normatização, de uma receita a ser aplicada a priori, antes da análise do “momento histórico que passamos”.

Só que a minha afirmação não é o tal de “modelo ideal”; ela é uma síntese (não feita por mim) de uma análise anterior que alguém fez do momento histórico pelo qual passamos. Algumas pessoas estudaram o momento histórico, partiram dele, analisaram de onde ele veio, quais são as relações determinantes, quais são seus limites, e para a onde a contradição entre os limites aponta. Após esse processo, essas pessoas fizeram uma síntese, fizeram uma exposição de como é a realidade.

Então, a questão-chave: para quem tem acesso apenas à síntese, pode parecer que quem a produziu tirou a afirmação da cabeça, utilizou-se de habilidades alquimistas, tendo como matéria-prima ideias  paridas como ideias,  um momento místico, mas não teria tirado da realidade. Novamente, Marx fez um comentário sobre essa confusão, vivenciada (ou melhor, presenciada) por ele após publicar o primeiro livro d’O Capital, levando-o a escrever um posfacio no qual distingue método de exposição e método de pesquisa:

“Certamente, o processo de exposição deve distinguir-se formalmente do processo de investigação. Cabe à investigação apropriar-se da matéria em todos os seus pormenores, analisar as diversas formas do seu desenvolvimento e descobrir a sua relação íntima. É somente depois de concluída esta tarefa que o movimento real pode ser exposto no seu conjunto. Se se conseguir chegar a esse ponto, de tal modo que a vida da matéria se reflicta na sua reprodução ideal, isso pode levar a acreditar numa construção a priori.” (pósfacio da 2ª edição alemã do Capital).

Colocada em tais termos, minha afirmação – que quase esfacela-se no chão de tão gorda e sedentária está, por aposentadoria precoce, cuja responsabilidade recai tanto em condições históricas, quanto opções políticas tomadas e mantidas teimosamente, ou que quase evapora atmosfera afora de tão vazia e abstrata mantêm-na as mesmas condições históricas, mas outras opções políticas (com mesmo grau de teimosia birrenta) -, essa minha afirmação diz respeito ao momento histórico da Inglaterra na segunda metade do séc. XIX, à Rússia nas duas primeiras décadas do séc. XX, à China na metade do séc. XX, a Cuba na segunda metade do séc. XX? Ou diz respeito às sociedades onde predominam as relações capitalistas de produção, polarizadas por detentores dos grandes meios de produção e vendedores exclusivamente da própria força de trabalho?

Ora, o que eu disse sobre socialismo, ruptura, derrubada do Estado burguês e construção de um Estado proletário não é um modelo teórico ideal; é a conclusão à qual chegou-se após analise do próprio momento histórico no qual vivemos. Não o Brasil no século XXI, mas o momento do sociedade mercantil-capitalista em geral . Isso, de forma alguma, exclui táticas particulares a cada nação, e inclusive a cada região a depender da nação. Mas, por outro lado, isso aponta para a clareza que devemos ter sobre a estratégia. Se há discordância nesse ponto, então temos discordância no que é capitalismo, no que é determinante em uma sociedade capitalista, no que é o Estado capitalista, e até no que é uma revolução.

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