Eu e Danilo decidimos por reduzir ao mínimo a publicação aqui de coisas de outras pessoas. Não por egocentrismo, mas para não usarmos isso como solução às nossas dificuldades em escrever frequentemente.
Porém, bem avaliadas certas exceções podem ser muito positivas. É o meu palpite para o texto abaixo, publicado hoje na Folha de São Paulo.
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Um documentarista se dirige a cientistas
Arte, ciência e desenvolvimento
RESUMO Neste ensaio, derivado de uma participação do documentarista João Moreira Salles em simpósio da Academia Brasileira de Ciências, discute-se a hipervalorização das artes e humanidades em detrimento das ciências “duras” e da engenharia, e as consequên- cias do processo para o desenvolvimento tecnológico, científico e cultural do país.
JOÃO MOREIRA SALLES
Agradeço ao professor Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências, o convite que me fez para falar a uma plateia de colegas seus, na crença de que eu pudesse servir de porta-voz das humanidades num encontro de cientistas. Peço desculpas por desapontá-lo.
Sou ligado ao cinema documental e, mais recentemente, ao jornalismo, atividades que, se não são propriamente artísticas, decerto existem na fronteira da criação. Jornalismo não é literatura nem documentário é cinema de ficção. Nosso capital simbólico é muito menor e nosso horizonte de possibilidades é limitado pelos constrangimentos do mundo concreto.
Não podemos voar tanto, e essa é a primeira razão pela qual, com notáveis exceções, o que produzimos é efêmero, sem grande chance de permanência. Não obstante, é fato que minhas afinidades pessoais e profissionais estão muito mais próximas de um livro ou de um filme do que de uma equação diferencial -o que não me impede de achar que há um limite para a quantidade de escritores, cineastas e bacharéis em letras que um país é capaz de sustentar.
Isso deve valer também para sociólogos, cientistas políticos e economistas, mas deixo a suspeita por conta deles. Na minha área, creio que já ultrapassamos o teto há muito tempo, e me pergunto de quem é a responsabilidade. Em 1959, o físico e escritor inglês C.P. Snow deu uma famosa palestra na Universidade de Cambridge sobre a relação entre as ciências e as humanidades. Snow observou que a vida intelectual do Ocidente havia se partido ao meio.
De um lado, o mundo dos cientistas; do outro, a comunidade dos homens de letras, representada por indivíduos comumente chamados de intelectuais, termo que, segundo Snow, fora sequestrado pelas humanidades e pelas ciências sociais. As características de cada grupo seriam bem peculiares. Enquanto artistas tenderiam ao pessimismo, cientistas seriam otimistas.
Aos artistas, interessaria refletir sobre a precariedade da condição humana e sobre o drama do indivíduo no mundo. O interesse dos cientistas, por sua vez, seria decifrar os segredos do mundo natural e, se possível, fazer as coisas funcionarem. Como frequentemente obtinham sucesso, não viam nenhum despropósito na noção de progresso.
Estava estabelecida a ruptura: de um lado, o desconforto existencial, agravado pela perspectiva da aniquilação nuclear; do outro, a penicilina, o motor a combustão e o raio-X. Na qualidade de cientista e homem de letras, Snow se movia pelos dois mundos, cumprindo um trajeto que se tornava cada vez mais penoso e solitário.
“Eu sentia que transitava entre dois grupos que já não se comunicavam”, escreveu. Certa vez, um amigo seu, cidadão emérito das humanidades, foi convidado para um daqueles jantares solenes que as universidades inglesas cultivam com tanto gosto. Sentando-se a uma mesa no Trinity College -onde Newton viveu e onde descobriu as leis da mecânica clássica- e feitas as apresentações formais, o amigo se virou para a direita e tentou entabular conversa com o senhor ao lado.
Recebeu um grunhido como resposta. Sem deixar a peteca cair, virou-se para o lado oposto e repetiu a tentativa com o professor à sua esquerda. Foi acolhido com novos e eloquentes grunhidos.
Acostumado ao breviário mínimo da cortesia -segundo o qual não se ignora solenemente um vizinho de mesa-, o amigo de Snow se desconcertou, sendo então socorrido pelo decano da faculdade, que esclareceu: “Ah, aqueles são os matemáticos.
Nós nunca conversamos com eles”. Snow concluiu que a falta de diálogo fazia mais do que partir o mundo em dois. A especialização criava novos subgrupos, gerando células cada vez menores que preferiam conversar apenas entre si.
SÍNTESE E ORDEM Não sei se alguém já voltou a conversar com os matemáticos. Torço para que sim, apesar das evidências em contrário. Seria um desperdício, pois a matemática, para além dos seus usos, é guiada por um componente estético, por um conceito de beleza e de elegância que a maioria das pessoas desconhece.
O que move os grandes matemáticos e os grandes artistas, desconfio, é um sentimento muito semelhante de síntese e ordem. Os dois grupos teriam muito a dizer um ao outro, mas, até onde sei, quase não se falam. (No passado, o poeta Paul Valéry deu conferências para matemáticos e o matemático Henri Poincaré falou para poetas.)
Segundo Snow, com a notável exceção da música, não há muito espaço para as artes na cultura científica: “Discos. Algumas fotografias coloridas. O ouvido, às vezes o olho. Poucos livros, quase nenhuma poesia.” Talvez seja exagero, não saberia dizer. Posso falar com mais propriedade sobre a outra parcela do mundo, e concordo quando ele diz que, de maneira geral, as humanidades se atêm a um conceito estreito de cultura, que não inclui a ciência.
Os artistas e boa parte dos cientistas sociais são quase sempre cegos a uma extensa gama do conhecimento. Numa passagem famosa de sua palestra, Snow conta o seguinte: “Já me aconteceu muitas vezes de estar com pessoas que, pelos padrões da cultura tradicional, são consideradas altamente instruídas.
Essas pessoas muitas vezes têm prazer em expressar seu espanto diante da ignorância dos cientistas. De vez em quando, resolvo provocar e pergunto se alguma delas saberia dizer qual é a segunda lei da termodinâmica. A resposta é sempre fria -e sempre negativa. No entanto, essa pergunta é basicamente o equivalente científico de ‘Você já leu Shakespeare?’.
Hoje, acho que se eu propusesse uma questão ainda mais simples -por exemplo: ‘Defina o que você quer dizer quando fala em ‘massa’ ou ‘aceleração”, o equivalente científico de ‘Você é alfabetizado?’-, talvez apenas uma em cada dez pessoas altamente instruídas acharia que estávamos falando a mesma língua”.
RESPONSABILIDADE Vivendo quase exclusivamente no hemisfério das humanidades, recebo poucas notícias do lado de lá. O que eu teria a dizer sobre ciência fica perto do zero. Por outro lado, como especialista na minha própria ignorância, posso discorrer sobre ela sem embaraços. Com as devidas ressalvas às exceções que devem existir por aí, estendo minha ignorância a todo um grupo de pessoas e me pergunto de quem seria a responsabilidade por sabermos tão pouco sobre as leis que regem o que nos cerca.
As respostas são previsíveis. Em parte, a responsabilidade é dos próprios cientistas, que não fazem questão de se comunicar com a comunidade não-científica; em parte é dos governos, que raramente têm uma política eficaz de promoção da ciência nas escolas; e em parte -e essa é a parte que mais me interessa- é nossa, das humanidades, que tomamos as ciências como um objeto estranho, alheio a tudo o que nos diz respeito. A quase totalidade dos personagens de classe média da literatura e do cinema brasileiro contemporâneos pertence ao mundo dos artistas e intelectuais.
São jornalistas, escritores (geralmente em crise e com bloqueio), professores (quase sempre de história, filosofia ou letras), antropólogos, viajantes (à deriva), cineastas, atores, gente de TV ou filósofos de botequim. Quando muito, um empresário aqui, um advogado acolá. Para encontrar um engenheiro ou médico, é preciso voltar quase a Machado de Assis. Cientistas são pouquíssimos, se bem que no momento não me lembro de nenhum. (Os filmes de Jorge Duran são uma exceção, mas ele nasceu no Chile.)
É como se, do lado de fora das disciplinas criativas, não houvesse redenção. Em “Cidade de Deus”, o menino escapa do ciclo de violência quando recebe uma máquina fotográfica e vira fotógrafo. Não parece ocorrer a ninguém -nem aos personagens, nem ao público- a possibilidade de ele virar biólogo, meteorologista ou mesmo técnico em ciência.
“Cidade de Deus” é uma narrativa realista, e portanto tende a preferir o provável ao possível. Mas não é só isso. Nenhuma daquelas profissões soaria suficientemente cool ao público -seria um anticlímax. Em nome da eficácia narrativa, bem melhor ele virar artista. Eleição para a Academia Brasileira de Letras dá página de jornal.
Já no caso da Academia Brasileira de Ciências, saindo da comunidade científica, é improvável achar alguém que tenha pelo menos noção de onde ela fica, que dirá saber o nome de algum acadêmico.
Há pouco tempo, escrevi o perfil de um jovem matemático carioca, Artur Avila. Boa parte dos meus amigos -alguns deles muito bem informados- não sabia da existência do Impa [Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada], sob vários aspectos a melhor instituição de ensino superior do país (o número de artigos publicados em revistas de circulação internacional de alto padrão científico, por exemplo, põe o Impa de par em par com alguns dos grandes centros americanos de matemática, como Chicago e Princeton).
DESCOLADOS Uma das minhas obsessões é folhear a revista dominical do jornal “O Globo” . Existe ali uma seção na qual eles abordam jovens descolados na saída da praia, de cinemas, lojas e livrarias, para conferir o que andam vestindo. No pé da imagem, informa-se o nome e a profissão da pessoa.
Um número recente trazia um designer, uma produtora de moda, um estudante, uma dona de restaurante, um assistente de estilo, outra designer, uma jornalista, uma publicitária, um “dramaturg” (estava assim mesmo), uma estilista, outra estilista e alguém que exercia a misteriosa profissão de “coordenadora de estilo”.
Acompanho essas páginas há um bom tempo, e estatisticamente o resultado é assombroso. Conto nos dedos o número de engenheiros, médicos ou biólogos que vi passar por ali. Eles não podem ser tão malvestidos assim. De duas, uma: ou são relativamente poucos, ou a revista prefere destacar as profissões que considera mais charmosas.
As duas alternativas são muito ruins, mas a segunda me incomoda particularmente, pois sei por experiência como é poderosa a atração exercida por algumas profissões com alto cachê simbólico.
Dou aula na PUC-Rio, no departamento de comunicação, que num passado recente oferecia apenas cursos de jornalismo e publicidade. Durante alguns anos, lecionei história do documentário para turmas de futuros jornalistas. Em 2005 foi criada a especialização em cinema -e, hoje, quase todos os meus trinta e poucos alunos são [sic] estudam cinema.
PESADELO Existem no Rio quatro universidades que oferecem cursos de cinema; no Brasil, são ao todo 28, segundo o Cadastro da Educação Superior do MEC. No ano passado, a PUC-Rio formou três físicos, dois matemáticos e 27 bacharéis em cinema.
Existem 128 cursos superiores de moda no Brasil. Em 2008, segundo o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira], o país formou 1.114 físicos, 1.972 matemáticos e 2.066 modistas. Alimento o pesadelo de que, em alguns anos, os aviões não decolarão, mas todos nós seremos muito elegantes.
É evidente que um país pode ter documentaristas demais e físicos de menos. O Brasil já sofre uma carência de engenheiros. Segundo dados de um relatório do Iedi [Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial] entregue ao ministro da Educação, Fernando Haddad, a taxa de formação de engenheiros no Brasil é inferior à da China, da Índia e da Rússia, países emergentes com os quais competimos.
A Rússia forma 190 mil engenheiros por ano, a Índia, 220 mil e a China, 650 mil, diz o relatório. Nós formamos 47 mil. Os números da China são pouco confiáveis, mas outras comparações eliminam possíveis dúvidas. A Coreia do Sul, por exemplo, com 50 milhões de habitantes, forma 80 mil engenheiros por ano, 26% de todos os formandos.
Na China, a crer nas métricas, essa proporção chega a 40%. Em 2006, a taxa por aqui era de apenas 8%. Até o México, país com indicadores sociais semelhantes aos nossos, hoje possui 14% de seus formandos nessa área.
ESTAGNAÇÃO Companhias que integram a “Fortune 500″, lista das maiores empresas do mundo, mantêm 98 centros de pesquisa e desenvolvimento na China e outros 63 na Índia. No Brasil aparentemente não é feita esta contagem; se o número existe, consegui-lo é uma proeza, o que só confirma a pouca importância atribuída ao assunto. O relatório do Iedi mostrou que os gastos totais em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB estão estagnados no país. Há cinco anos não cresce o número de empresas que investem em desenvolvimento.
Em 2009, apesar da crise, a Toyota sozinha registrou mais de mil patentes. A soma de todas as patentes requeridas pelas empresas brasileiras não chegou à metade disso, segundo a Anpei [Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras]. Somos detentores de 0,3% das patentes do planeta. Em termos de inovação, ocupamos o 24º lugar entre as nações. O país prospera à força de consumo, não de investimento ou invenção.
Compramos coisas que foram pensadas lá longe, as quais serão brevemente superadas por outras coisas que também não terão sido pensadas aqui. É um processo estéril. Escritores, cineastas e editores de suplementos dominicais se espantariam em saber que, na China, a proficiência em matemática desfruta de uma forte valorização simbólica.
Na Índia, um jovem programador de software se sente no topo do mundo. Há pouco tempo, o jornalista Thomas Friedman, do “New York Times”, publicou uma coluna sobre os 40 finalistas de um concurso promovido pela empresa de processadores Intel, que premia os melhores alunos de matemática e ciências do ensino médio americano.
Cada um deles solucionou um problema científico. Eis o nome dos jovens americanos premiados: Linda Zhou, Alice Wei Zhao, Lori Ying, Angela Yu-Yun Yeung, Kevin Young Xu, Sunanda Sharma, Sarine Gayaneh Shahmirian, Arjun Ranganath Puranik, Raman Venkat Nelakant -assim prossegue a lista, até terminar com Yale Wang Fan, Yuval Yaacov Calev, Levent Alpoge, John Vincenzo Capodilupo e Namrata Anand.
VALORIZAÇÃO PÍFIA Enquanto isso, como lembra o matemático César Camacho, diretor do Impa, várias universidades brasileiras têm vagas abertas para professores de matemática, não preenchidas por falta de candidatos. A valorização das ciências entre nós é pífia. Sempre me espanto com a presença cada vez maior de projetos sociais que levam dança, música, teatro e cinema a lugares onde falta quase tudo.
Nenhuma objeção, mas é o caso de perguntar por que somente a arte teria poderes civilizatórios. Ninguém pensa em levar a esses jovens um telescópio ou um laboratório de química ou biologia? Centenas de estudantes universitários gostariam de participar de iniciativas assim. Com entusiasmo -e um pró-labore-, mostrariam que a ciência também é legal e despertariam talentos. Seria bom também se o nosso sistema educacional fosse mais flexível, com cadeiras de humanidades e iniciação científica no ciclo básico de todos os cursos universitários.
É imprudente tomar uma decisão definitiva aos 18 anos de idade, mas é exatamente o que têm de fazer os alunos ao entrar na universidade -embora, como norma, eles não saibam para o que têm vocação. Uma vez escolhido o escaninho, somem as oportunidades de conhecer outras áreas e eventualmente migrar.
Se em algum momento a vocação se manifesta, em geral o aluno e sua família consideram que é tarde. Circunstâncias econômicas ou psicológicas -começar de novo exige determinação férrea- dificultam muito um ajuste de rota. (Sei bem como é, porque foi o meu caso.) É absolutamente certo que, neste momento, alguns milhares de jovens estão prestes a cometer o mesmo equívoco.
Muitos se revelarão apenas medianos ou preguiçosos, e é provável que a ciência não tenha como alcançá-los. Sem desmerecer os excelentes alunos de cinema, letras ou sociologia, é impossível negar que, para alguém sem grande talento ou dedicação, será sempre mais fácil ser medíocre num curso de humanas do que num de exatas.
Alguns desses jovens sem orientação provavelmente terão inclinação para as ciências e ainda não descobriram. É preciso criar mecanismos que os ajudem a escolher o caminho certo. Infelizmente, as artes e as humanidades, pelo menos por enquanto, não colaboram muito. Ao contrário. Nós disputamos esses jovens e, infelizmente, até aqui estamos ganhando a guerra.
Concordo com a fala do documentarista João M. Salles. Mas não entendo porque o grupo Unibanco investe tanto em cinema e pouco ou nada nas ciências exatas? Ou se investe, não divulga, como faz com as artes.
Gina,
provavelmente não divulga.
Mas uma grande instituição, seja uma indústria, seja um banco, não empregam apenas por seleções públicas. Precisam treinar pessoas em pontos específicos, demandas projetadas já pela empresa, etc.
Mas, como o próprio João diz, isso não dá ibope. E, pelo viés dos interesses, não faz diferença divulgar.
Muito legal o artigo, coloca importantes questões. Mas acho importante destacar que ele coloca as questões, mas não as resolve.
Não gostei tanto do ponto “VALORIZAÇÃO PÍFIA”, acho que foi uma passo maior do que as pernas. Sem coorporativismo, tendo a não concordar com a frase “para alguém sem grande talento ou dedicação, será sempre mais fácil ser medíocre num curso de humanas do que num de exatas”. Acho que esta reflexão atropela um ponto que precede, que é o caráter dado a cada área do conhecimento, entendendo que não há um caráter por princípio em cada disciplina. Sobre esta frase, temos antes de pensar a diferença entre o professor de matemática do primário e o grande quadro do IMPA. É bastante claro que o matemático apresentado no artigo é aquele que joga xadrez nas horas vagas, detentor de um raciocínio brilhante e participante de um projeto único. O matemático de que se fala no artigo me lembra muito mais Heri Seldon, personagem da série de ficção de Isaac Asimov, “A Fundação”, capaz de estabelecer todas as possibilidades do futuro a partir de cálculos; me lembra muito mais ele do que as professoras das escolas públicas brasileiras.
Coloco as coisas desta forma pensando no que há de morto no pensamento hoje. Tanto as ciências sociais, quanto o que é apresentado como ciências duras, devem ser disputadas para serem dispositivos de formulação e aplicação de soluções para a população, junto da população, sem esta história de luzes sobre as sombras.
É isto que entendo como valor cientifico: a ciência se consumindo coletivamente, tratando de dar respostas que sejam grandes passos para as comunidades, correspondendo às necessidades de muitas famílias, seja do estômago ou da mente. Muito diferente disto é o consumo da ciência na concorrencia entre apenas um e outro, colocados neste momento sobre todas as famílias citadas.
Deixo assim, proponho que pensemos na professora de matemática (não estou sendo machista, é que tive aula de matemática no primário com uma mulher) e não em Heri Seldon. Quanto a este último, recomendo a leitura da obra que lhe apresenta como personagem central. “A Fundação”, de Isaac Asimov, um daqueles caras que conseguiu fazer ficções que foram lidas também por cientistas.
Não acho que ele estivesse se referindo “[a]o caráter dado a cada área do conhecimento”. Interpretei de modo diferente. Enxergando pela perspectiva de valorização que o autor propõe, e, também como ele diz, excluindo-se os grandes alunos das áreas humanas, é mais fácil, mesmo que por inércia, ser ‘medíocre’ em um curso de humanas do que em um de exatas. Uma comparação estatística entre a quantidade de alunos que desistem dos curso entre as duas áreas provavelmente confirmaria tal proposição.
Quanto as professoras de matemática do ensino médio, não entendi. Não entendi mesmo. Tive tantos professores de matemática ruim tanto quanto professores de história, geografia, português, sociologia e afim. Não seria um caso do sistema de ensino como um todo?
Pessoas extremamente geniais existem em todas as áreas. Concordo que ele tenha escolhido um exemplo perto da perfeição para embasar sua argumentação, mas seria o mesmo que dizer, em outras palavras, que esqueçamos Marx e pensemos naquele sociólogo (do qual não me recordo o nome) merecedor de grande atenção ao falar na Veja sobre a sociologia como matéria obrigatória no ensino médio.
(Complementando):
Não faz sentido esquecermos Marx outro grande exemplo.
Quanto ao texto, concordei com o Salles em vários pontos. Ainda não refleti o suficiente sobre o assunto, mas é inegável a ruptura entre áreas científicas. Gosto muito das outras áreas e convivo sempre com um preconceito tolo (nas ciências sociais) em relação a importância das ciências exatas. Até mesmo estatística (que considero, juntamente com calculo I, totalmente essencial para se existir. Não imagino como as pessoas consigam viver sem noções de integral e derivada e uma certa familiarização com análises gráficas) é totalmente ridicularizada e levada como algo sem importância. Sinceramente, todo esse papo de se afastar das pré-noções e continuamos com o mesmo comportamento de sempre, mas sutil, refinado e pedante. Pelo menos eu continuo, e me abomino por isso (não o faço em relação as ciências exatas, das quais gosto muito, mas em relação a tantas outras coisas que não cabem aqui).
Texto interessantíssimo. Casou com minhas ideias em pontos muitos. Tenho muito sobre o que pensar agora…
Boa tarde, como seria feito um mapa mental em relação a este texto?
Alguem teria alguma ideia?
Conto com a colaboração de todos.
Luiz,
eu não uso mapas mentais.
Por não ter o hábito, não posso ajudar.
Mas também não sei se é o caso de dispender energia para um.
Abraço.
(…)Ora, vejam como pode um bacharel achar-se capaz para a manifestação do pensamento, com estatura de portador de um diploma de curso superior, se não é capaz de possuir uma leitura critica do Estado Social e de suas estruturas?
Desgraçadamente, as academias, em sua grande maioria, se consemelham com a mesma estrutura podre e adormecida no tempo, dirigidas por pessoas incompetentes técnica e profissionalmente, muitas vezes em nada se preocupando com a formação científica, mas tão somente com o jogo capitalista empreendido pelos proprietários da escola, quase sempre pertencente à mesma quadrilha de desgraçados dominantes que mais contribuem para que o país se foda, ainda que primeiramente se foda o miserável acadêmico em sua indústria de diploma de bacharéis. Os professores dessas academias, 95% das vezes, são desonestos intelectuais próximos da direção da academia, com um emprego de juiz, promotor ou delegado de policia, tudo o que não deveria marcar presença em um centro de ciências, pois, estes, todos, 95% das vezes, são mecanicistas do próprio sistema.
É sempre estranhável a leitura da história, pois, não se emprega o método marxista de análise. A história, mesmo depois da implantação do Instituto Histórico, no Brasil, capta uma dicção não ideológica, ou seja, faz uma leitura sob a ótica do governante ou desta mesma classe e categoria, geralmente burguesa; não articula os interesses econômicos predominantes por trás dos fatos e sua magnitude de força. Osny Pereira Duarte, a exemplo de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e outros bons intelectuais, fazem essa leitura no ângulo marxista de análise.